Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Um presidente com a máquina federal à disposição terminou o primeiro turno atrás do adversário. A primeira semana do segundo turno não sugere reação organizada. Sugere uma campanha que ainda procura quem responda por ela.
Começa pelo marketing. Lula avaliou chamar João Santana, marqueteiro de campanhas vitoriosas do PT, para entrar no lugar de Raul Rabelo ou para reforçá-lo. Em 8 de outubro, incorporou três marqueteiros que passaram pelas campanhas de João Campos, Jerônimo Rodrigues e Fernando Haddad: Rafael Marroquim, Bruno Monteiro e Otávio Antunes. Somam-se a Rabelo, que é sócio do ministro Sidônio Palmeira, e à influência do próprio Sidônio na estratégia. Quem já fez campanha sabe o risco: quando a resposta a um revés é juntar mais marqueteiros, o problema deixa de ser falta de ideia e passa a ser falta de comando. É muito cacique para pouco índio, e a mensagem fica para depois.
Há ainda o fogo amigo. O descontentamento com o trabalho do marqueteiro ligado a Sidônio deixou de ser conversa de bastidor e chegou à imprensa por relatos de aliados e de ministros do próprio governo. As reportagens falam em uma estratégia de comunicação considerada engessada e em ministros que defendem a troca de Rabelo por Santana. Pode ter sido desabafo ou pressão calculada, mas o efeito é o mesmo: quem fala contra o próprio time na semana mais sensível da campanha entrega ao adversário o roteiro do problema. Crítica interna se resolve em reunião fechada. Na imprensa, vira manchete.
O desgaste também apareceu em voz alta. Na reunião do PT, a ex-senadora Kátia Abreu pediu “mais Alckmin, menos Janja” e disse, em entrevista, que a atuação da primeira-dama não estava gerando votos. A assessoria de Janja respondeu que ela segue na campanha e tem aval do marido para continuar atuando . Kátia também criticou o poder de Sidônio e afirmou que ele falhou. Não importa se a crítica é justa. Importa que veio de dentro, da coordenadora da campanha no Tocantins.
Veio então a reformulação: Rafael Fonteles assume a comunicação, Camilo Santana a coordenação política e Rui Costa a agenda. Mudar o comando depois de um revés é normal. O problema é a cena: a troca foi tratada como correção de erro, e o presidente demonstrou publicamente insatisfação com a equipe coordenada por Edinho Silva.
O caso Ana Elisa resume o risco. A deputada eleita do PT por Minas, de 21 anos e 524 mil votos, foi anunciada em 7 de outubro para reforçar a estratégia digital. Em poucas horas, posts antigos dela voltaram a circular. Ela desativou o perfil no X e, em 9 de outubro, pediu desculpas por mensagens que disse terem sido tiradas de contexto, ao mesmo tempo em que contestou a autenticidade de um print específico. Em menos de 48 horas, a comunicação da campanha foi entregue ao governador do Piauí. Faltou checagem prévia, que é o básico de uma campanha profissional.
Do ponto de vista estratégico, o quadro é desfavorável. A pesquisa PoderData/Aya de 8 de outubro mostra Flávio com 53% e Lula com 47% no segundo turno. Faltam menos de três semanas, e a campanha que deveria ampliar votos gasta a primeira semana arrumando a casa.