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Rua cheia, MDB no bolso e uma conta de R$ 250 bilhões que não fecha: a semana de Flávio Bolsonaro

O candidato do PL expandiu o “Bloco do 22” pelo país e fechou apoio do MDB, mas foi ao Jornal Nacional, deixou perguntas sem resposta e ainda tem uma equipe econômica que fala em vozes diferentes
Flávio Bolsonaro candidato do PL (Foto: divulgação / arquivo)

Depois de uma semana difícil, Flávio Bolsonaro reagiu. Terminou o primeiro turno na frente, com 47,03% dos votos válidos, e as pesquisas de 14 a 16 de outubro mostram empate técnico com Lula, com 47% a 45% no Datafolha. Tem motivos para se animar com o que fez nas ruas e na política. Mas a semana terminou com uma sabatina que deixou mais dúvidas do que respostas.

Comecemos pelo que deu certo. O “Bloco do 22”, formato que André Fernandes já usava em Fortaleza desde a campanha de 2024, virou marca nacional. Nikolas Ferreira o levou para Minas, onde Flávio esteve em Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, buscando indecisos e quem votou em branco no primeiro turno, com nova visita marcada para 24 de outubro, na véspera da votação. No Rio, vereadores do PL organizaram blocos nos bairros, e em Fortaleza André marcou um ato com o candidato para 21 de outubro. É uma campanha de calçada, de contato direto, e não só de estúdio.

Na política, o avanço foi o MDB. Em 13 de outubro, em São Paulo, o presidente nacional do partido, Baleia Rossi, oficializou o apoio majoritário a Flávio, ao lado de Tarcísio de Freitas e do prefeito Ricardo Nunes. São 17 dos 27 diretórios, entre eles São Paulo, Minas, Rio, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Goiás, com cinco pontos de convergência apresentados pelo partido. Dez diretórios do Norte e do Nordeste ficaram com Lula, mas é o maior bloco. Flávio ainda recuou na 6×1: depois de chamar o debate de “oportunista”, votou a favor da emenda no Senado e disse que não pretende revertê-la.

Então veio a sabatina, na sexta (16), e ela mostrou um candidato com dificuldade de responder ao que foi perguntado. Renata Lo Prete insistiu em questões que ele evitava e precisou interrompê-lo mais de uma vez para trazê-lo de volta ao assunto. Sobre o projeto de retirar a marcação das cápsulas de munição das forças de segurança, Flávio tratou o tema como um “detalhezinho”, e ela encerrou dizendo que ficou sem resposta. Sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, com dinheiro ligado ao dono do Banco Master, falou em “relação privada” e comparou o caso a anúncios do banco na própria Globo, comparação que Lo Prete rebateu. Quando citou um suposto áudio sobre um filme de Lula, ela o interrompeu para dizer que trabalha com fatos estabelecidos. Segundo analistas ouvidos pelo UOL, perguntado sobre o golpe, respondeu falando de motoboys. E a Lupa classificou como falsa a afirmação dele de que a PF teria confirmado “propina” ao documentário sobre Lula.

Em outros temas, ele foi mais claro: prometeu não disputar reeleição, aceitar o resultado das urnas, não nomear o irmão Eduardo para chanceler e disse que nomear o pai “não está no radar”. Também anunciou, na TV, a criação de um Ministério da Prosperidade. Mas o ponto mais sensível ficou na economia: o ajuste de cerca de R$ 250 bilhões nas despesas, que a imprensa batizou de “tesouraço”. Flávio prometeu cortar dez ministérios, manter o salário mínimo acima da inflação e preservar aposentadorias e os pisos de saúde e educação, mas não explicou de onde sairia o restante. Disse que “o maior ajuste fiscal é tirar o Lula”, frase boa para o comício e que não responde a pergunta.

Parte da dificuldade vem de dentro. A equipe econômica fala em vozes diferentes, e o exemplo mais claro são Adolfo Sachsida e Daniella Marques. Em setembro, Daniella, ex-presidente da Caixa e do time de Paulo Guedes, disse que Javier Milei é “um ótimo exemplo”, defendeu um ajuste fiscal rápido e citou o Banco do Brasil e os Correios entre as estatais que podem ser privatizadas. Em 8 de outubro, Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia, gravou um vídeo afirmando que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa não serão privatizados, e quem comemorou foi Eduardo Bolsonaro, que escreveu no X que “o mundo mudou” e que o tema é “um debate sobre soberania”. Em uma frase, o irmão do candidato tomou partido na disputa interna, e foi pelo lado de Sachsida. Segundo a imprensa, os dois também disputam o comando da economia num eventual governo.

E o PT aproveitou. A campanha de Lula repete que o corte atingiria salário mínimo, aposentadorias e programas sociais, e um ministro chegou a dizer que o Pé-de-Meia estaria em risco. A falha foi deixar a conta aberta: enquanto a imprensa informa que a equipe estuda mudar a correção do INSS e do BPC, e economistas, até alguns favoráveis ao candidato, dizem que é difícil chegar a esse valor sem mexer nessas despesas, o candidato nega. O almoço de Flávio com executivos da Globo, no mesmo dia da sabatina, também virou alvo: o coordenador da campanha de Lula, Camilo Santana, classificou o encontro de “inoportuno”.

Para o eleitor indeciso, que decide a eleição, a dúvida é simples: quem vai pagar a conta? Na minha leitura, Flávio precisa transformar o “não vou tirar de aposentado” em uma lista curta e concreta do que será cortado, e fazer isso antes de domingo. Eleição apertada não costuma ser perdida por falta de aliados. É perdida por pergunta sem resposta.

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