Buscar

Cuidamos da sua privacidade

Utilizamos cookies para ver quais páginas você já viu em nosso jornal e para personalizar as propagandas para você. Ao continuar utilizando nosso site, você aceita esse uso. Por favor, leia nossa Política de Privacidade e Termos de Uso.

Lula acordou? Em uma semana, ele trocou a comunicação, encheu as ruas e foi atrás do voto conservador

Com o PT do Nordeste no comando, o fim da escala 6x1 promulgado e uma sabatina pensada para o eleitor de centro, a campanha de Lula saiu da defensiva e as pesquisas já falam em empate técnico
Campanha Lula tem mudanças de rumo (Foto: Reprodução)

Há uma semana, a campanha de Lula parecia desorganizada, e a conversa de bastidor era de que o presidente tinha perdido a mão. Hoje o cenário é outro: Datafolha, Quaest, PoderData e CNT/MDA apontam empate técnico, a oito dias do segundo turno. Flávio Bolsonaro segue numericamente à frente em quase todas, com 47% a 45% no Datafolha e 46% a 44% na Quaest, mas a diferença cabe na margem de erro. Nada menos que 93% dos eleitores dizem já estar decididos, e a rejeição está empatada: 54% para Flávio e 53% para Lula. Ou seja, cada voto vale ouro. E algo mudou na forma como Lula disputa esses votos.

O primeiro movimento foi na comunicação, e ele conta uma disputa de poder dentro do campo de Lula. De um lado, o PT do Nordeste, que tem voto: Jerônimo Rodrigues, Elmano de Freitas e Rafael Fonteles foram reeleitos governadores, Rui Costa foi eleito senador com mais de 4,3 milhões de votos, e Lula fez 70% no Piauí. Foram esses nomes que assumiram o comando: Camilo Santana na articulação política, Rui Costa na agenda e Fonteles na comunicação. Do outro, nomes do Sudeste e do Sul que durante anos pautaram o governo e o debate, mas que perderam nas urnas: Haddad foi derrotado por Tarcísio em São Paulo, Gleisi Hoffmann ficou fora do Senado no Paraná, e Marina Silva e Simone Tebet, ex-ministras de Lula, não se elegeram. Nenhum dos 17 ministros que deixaram o governo para disputar venceu o Senado ou um governo estadual. Na minha leitura, quem tem voto passou a ter voz, e isso mudou o tom da campanha.

O segundo movimento foi o chão. Na sexta (16), Lula esteve no Congresso para a promulgação do fim da escala 6×1, a principal bandeira da campanha, e seguiu para Minas: caminhadas em Juiz de Fora, que segundo estimativas reuniu cerca de 60 mil pessoas, e em Ipatinga, no Vale do Aço. A emenda reduz a jornada de 44 para 40 horas, com a primeira etapa, de 42 horas, em dezembro de 2026, sem redução de salário. Lula aproveitou para anunciar novas promessas: passe livre no transporte público aos fins de semana, ampliação do Pé-de-Meia para estudantes universitários e o perdão de dívidas de microempreendedores. É uma agenda concreta, que fala de bolso e de tempo livre.

O terceiro, e o mais importante da semana, foi a sabatina no Jornal Nacional, na quinta (15), conduzida por Renata Lo Prete. Lula foi a ela com um objetivo claro: falar com o eleitor de centro e com quem ainda não decidiu voto. E fez isso em três frentes. Na primeira, assumiu responsabilidade: disse “eu sou o governo” e que, se não for compreendido, a culpa é dele, uma rara mea culpa em campanha. Na segunda, a segurança: disse que é favorável a reduzir a maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos, ainda que “não nessa PEC”, e que o tema deve ser discutido depois da PEC da Segurança. Foi a primeira vez que o presidente assumiu isso em público, e é um aceno direto ao eleitor mais conservador nos costumes, que votou em Flávio ou ficou em casa. Na terceira, a economia: ajuste fiscal sem cortes para os mais pobres e salário mínimo acima da inflação.

Mas a sabatina também deixou um tropeço, e ele tem nome: Bolsa Família. Lo Prete perguntou por que o programa só foi reajustado 17 dias antes do primeiro turno, de R$ 600 para R$ 691, e lembrou que o Orçamento de 2027 havia sido enviado ao Congresso, duas semanas antes, sem a correção. Lula respondeu que “não sabia” que o benefício estava havia quase quatro anos sem reajuste, chamou a situação de “inexplicável” e disse que mandou corrigir ao descobrir. A explicação é frágil por um motivo simples: quem comanda o governo e diz que não sabia que o principal programa social estava congelado abre espaço para a pergunta óbvia, a de quem estava cuidando. Para completar, checagens do Aos Fatos e do UOL Confere apontaram imprecisões, como os 22 milhões de empregos, que só fecham somando os governos de Dilma, e a afirmação de que aprovou todas as medidas enviadas ao Congresso.

O saldo da sabatina é misto: o aceno ao centro foi calculado e eficaz, mas o tropeço no Bolsa Família deu munição ao adversário. Lula saiu do estúdio correndo, num vídeo que ele mesmo publicou, o que mostra que a campanha achou o saldo positivo.

O quarto movimento está nas redes, e tem um nome: André Janones. O deputado criou o canal “Exército do Lula” no WhatsApp, que reuniu 1,8 milhão de pessoas em três dias e agora fala em chegar a 5 milhões, com uma comunicação de “mais calçada e menos helicóptero”, feita com celular e Lula em situações do dia a dia. A campanha montou uma sala de influenciadores e jovens parlamentares dentro do comitê, com nomes como Ana Elisa e Pedro Rousseff, e fandoms de música pop também colocaram seus perfis à disposição. Em uma eleição que se decide muito nas redes, é uma peça importante e que faltava.

No conjunto, é uma campanha que parou de se explicar e voltou a disputar a pauta: trabalho, transporte, segurança. Se isso basta para virar o jogo, só as urnas dizem. Mas quem apostava em uma campanha parada vai ter que rever as contas.

Artigo anterior
Nikolas e Pavanato têm 3 milhões de votos, mas o político mais completo da nova direita é André Fernandes, e Fortaleza pode ser o próximo passo
Próximo artigo
Rua cheia, MDB no bolso e uma conta de R$ 250 bilhões que não fecha: a semana de Flávio Bolsonaro

Relacionado à este artigo: