Quando alguém fala em nova direita no Brasil, dois nomes vêm logo à cabeça: Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato. Os dois passaram dos 3 milhões de votos na eleição para deputado federal, uma marca que o país nunca tinha visto. Ninguém pode fingir que isso é pouco.
Só que ter muito voto e fazer política de verdade são coisas diferentes. E é justamente aí que um terceiro nome ganha espaço: o de André Fernandes, deputado federal do PL do Ceará. Ele não tem 3 milhões de votos. Mas, olhando o conjunto, tem mais do que parece.
Comecemos pelos números, porque eles também falam. André entrou cedo na política: foi eleito deputado estadual em 2018, o mais votado do país entre os estaduais, e em 2022 foi o federal mais votado do Ceará. Agora, em 2026, foi além. Teve 684.372 votos, 12,39% dos votos válidos do estado, a maior votação da história cearense, superando o recorde que era do Ciro Gomes, e o quarto lugar entre todos os deputados federais do país. Está longe de ser coadjuvante.
Um detalhe importante: ele também sabe jogar o jogo das redes. Tem mais de 600 mil inscritos no YouTube e alcance de sobra. A diferença está no que vem depois do vídeo. Segundo o próprio deputado, quando era estadual ele apresentou requerimentos específicos para Fortaleza e acionou o Ministério Público para acompanhar o uso do dinheiro público. Já como federal, anunciou que pediria ao TCU para investigar emendas destinadas a uma Apae de Iguatu. Ou seja: usa a internet para falar com o eleitor, mas não se limita a ela.
Há também o lado de quem leva o recurso até o chão. Para 2026, o portal da Câmara registra mais de R$ 37 milhões em emendas aprovadas por ele para o Ceará, em saúde e segurança pública. E o curioso é que não escolhe só cidade amiga. Em 2024, mandou R$ 1 milhão para Itapipoca, que na época era governada pelo PT, e disse, ainda segundo o próprio deputado, ter feito o mesmo com outros municípios de prefeito petista. A explicação dele é simples: foi votado no estado inteiro e quer atender o maior número possível de cidades. É postura de quem pensa em governar para todos, e não só para a própria torcida.
Essa mistura de alcance com agenda é o que a imagem pública de Nikolas e Pavanato, mais ligada a vídeos e a pautas de guerra cultural, deixa menos visível. André fiscaliza o governo do estado e as prefeituras, e também propõe. Não fica só no ataque.
Ele ainda mostrou que sabe construir alianças, coisa que na política vale tanto quanto voto. Como presidente estadual do PL, colocou o partido na chapa de Ciro Gomes ao governo, ao lado de Capitão Wagner, e levou o próprio pai, Alcides Fernandes, para a disputa do Senado. Não foi uma decisão simples, porque Ciro era até pouco tempo um adversário histórico. O próprio André admitiu que já o tinha criticado, mas disse que o objetivo maior era derrotar o PT no Ceará. A chapa não venceu: Elmano de Freitas foi reeleito, e Cid Gomes e Luizianne Lins foram eleitos senadores. Mesmo assim, o resultado das urnas deixou André como o maior nome da oposição cearense, com a votação mais expressiva do estado e à frente de aliados que viram seus projetos naufragar.
O ponto mais importante, porém, é outro: ele topou se expor. Em 2024, André disputou a Prefeitura de Fortaleza. Podia ter ficado no conforto do mandato de deputado, onde se critica à vontade e quase ninguém cobra. Preferiu arriscar. Teve 40,20% no primeiro turno e perdeu o segundo por apenas 10.838 votos, 49,62% contra 50,38%. Levou para a campanha um plano de governo construído em 37 rodas de conversa, com mais de 100 páginas e 72 propostas.
Ao disputar, mostrou que não tem medo de perder. E mostrou também que não tem medo de deixar de ser a pedra para virar vidraça. Deputado pode criticar, cobrar e fazer bravata sem responder por nada. Prefeito não. Prefeito é a vidraça: lida com orçamento, folha de pagamento, buraco na rua, posto de saúde sem médico, e precisa fazer a máquina funcionar. Quem aceita esse risco quer governar de verdade, e não apenas falar.
E esse caminho pode estar mais perto do que parece. Em 2024, André bateu na trave, a pouco mais de 10 mil votos da vitória. Em 2026, saiu fortalecido: foi o mais votado do estado, teve 313.577 votos só em Fortaleza e se consolidou como a principal liderança da oposição ao petismo no Ceará. Se confirmar a candidatura em 2028, chega à disputa com uma base própria na capital, uma rede de aliados e a experiência da campanha anterior. Ele reúne condições reais de vencer.
Ser prefeito de Fortaleza, a quarta maior cidade do Brasil, com mais de 2,5 milhões de habitantes, é uma vitrine muito maior do que a de quem fica no embate cultural e na produção de vídeo atrás de curtida. Governar uma cidade desse tamanho dá a um político o que o engajamento não dá: obra, serviço e resultado que o eleitor vê na rua, no ônibus e na porta de casa. E é isso que, no fim, constrói liderança de longo prazo.
Se a pergunta for quem tem mais votos hoje, a resposta é Nikolas, e é justo reconhecer. Mas, se a pergunta for quem reúne mais condições de liderar a próxima etapa da direita, o nome que se destaca é André Fernandes.