Buscar

Cuidamos da sua privacidade

Utilizamos cookies para ver quais páginas você já viu em nosso jornal e para personalizar as propagandas para você. Ao continuar utilizando nosso site, você aceita esse uso. Por favor, leia nossa Política de Privacidade e Termos de Uso.

“Era só isso?”: quando a saúde mental perde espaço para a cobrança política

Ao falar sobre oito anos de fobia social, Felca trouxe à tona uma discussão necessária. Mas parte das reações mostrou como até o sofrimento psicológico pode ser deslegitimado quando não corresponde às expectativas do público.
Saúde mental não é “só isso”. Bullying não é piada, e empatia não deveria depender de posicionamento político. (Foto: reprodução)

Nem todo posicionamento precisa ser político. Nem toda fala pública precisa atender à expectativa de quem assiste. E nem todo assunto importante precisa estar a serviço de uma disputa eleitoral.

Ao falar sobre fobia social, Felca trouxe à tona uma questão que merece ser ouvida para além das interpretações políticas. Enquanto muitos esperavam um posicionamento sobre eleições, parte do público se deparou com um relato sobre saúde mental. A reação de alguns, no entanto, foi transformar a conversa em cobrança, como se o sofrimento psicológico fosse um tema menor diante dos acontecimentos políticos.

“Era só isso?”, “isso pode esperar” e “em plena eleição” foram algumas das manifestações que circularam nas redes sociais. Comentários que, vindos de pessoas comuns, já mereceriam reflexão, mas que ganham outra dimensão quando partem de figuras públicas e influenciadores, cuja voz alcança milhares ou até milhões de pessoas.

A questão não é impedir críticas, discordâncias ou cobranças a quem tem visibilidade. É compreender que existe uma diferença entre esperar um posicionamento de alguém e desqualificar aquilo que essa pessoa escolheu compartilhar.

Saúde mental não é “só isso”.

O relato de alguém que convive há oito anos com a fobia social não deveria ser tratado como uma pauta irrelevante apenas porque não responde às expectativas políticas de parte do público. O isolamento, o medo, a dificuldade de se expor e os impactos nas relações sociais não desaparecem porque o calendário eleitoral chegou.

Para quem nunca enfrentou esse tipo de sofrimento, pode parecer simples sair de casa, conversar, gravar um vídeo, participar de um debate ou se posicionar diante de milhares de pessoas. Para quem convive com a fobia social, situações aparentemente comuns podem representar desafios significativos. Não cabe ao público determinar a dimensão da dor alheia com base naquilo que consegue compreender.

E há outro ponto que não pode ser ignorado: o bullying não é piada.

O ataque que toca uma ferida nem sempre chega na forma de uma ameaça explícita. Às vezes, aparece como ironia, deboche ou cobrança coletiva. Às vezes, está escondido em uma pergunta aparentemente inofensiva: “Era só isso?”. Mas o efeito de uma fala não depende apenas da intenção de quem a publica. Também passa pelo contexto, pela exposição e pela maneira como ela contribui para tornar o sofrimento de alguém motivo de julgamento público.

Nesse cenário, a manifestação da Brapsi nas redes sociais, ao defender que a saúde mental de ninguém pode esperar o próximo turno, resume uma reflexão fundamental. A vida emocional das pessoas não segue o calendário eleitoral. O sofrimento não entra em recesso durante uma campanha, não espera o resultado das urnas e não precisa justificar sua relevância diante de uma pauta política.

Isso não significa que a política seja irrelevante. Pelo contrário: decisões políticas influenciam o acesso à saúde, a oferta de atendimento psicológico, as políticas de prevenção e o combate ao bullying. A discussão política e a saúde mental não são assuntos incompatíveis. O problema começa quando uma é utilizada para silenciar a outra, como se reconhecer uma dor significasse abandonar todas as demais questões sociais.

Talvez o episódio tenha revelado algo maior do que a frustração de quem esperava uma declaração política. Ele expôs a dificuldade que ainda temos de ouvir sem exigir, acolher sem julgar e reconhecer que uma experiência individual também pode abrir espaço para uma discussão coletiva.

Não é necessário concordar com Felca em tudo para reconhecer a importância de falar sobre fobia social. Não é preciso compartilhar de suas opiniões para entender que o bullying machuca. E não é necessário abandonar as próprias convicções políticas para admitir que a saúde mental merece atenção.

No fim, a pergunta mais importante não é por que ele falou sobre isso naquele momento. É por que, diante de um assunto tão delicado, tantas pessoas consideraram que havia algo mais importante do que escutar.

Porque, quando a dor de alguém só merece atenção se estiver alinhada às nossas expectativas, o problema já não está apenas naquilo que foi dito, mas na forma como aprendemos a ouvir.

Artigo anterior
Dia dos Professores: a data comemorativa começou 120 anos depois de uma lei assinada por Dom Pedro I

Relacionado à este artigo: