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Quatro nomes, quatro eleitos: o prefeito que não disputou nada e foi um dos maiores vencedores da eleição em Goiás

Márcio Corrêa nem estava na urna, mas a deputada estadual mais votada, o senador mais votado e dois deputados federais saíram do seu palanque. O que ele fez para chegar aqui?
Márcio Corrêa destacou o apoio do governador Daniel Vilela (Foto: Reprodução)

Quando o resultado de 4 de outubro fechou, um nome ficou de fora da lista de candidatos e, ao mesmo tempo, no centro de quase tudo: o do prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa. Sem disputar cargo algum, e depois de enfrentar o próprio partido, ele saiu da eleição como um dos maiores vencedores de Goiás.

Para entender como isso aconteceu, é preciso voltar um pouco.

Antes de entrar na política, Márcio Corrêa construiu carreira como cirurgião-dentista e empresário. Natural de Anápolis, com formação acadêmica em odontologia, mestrado e doutorado em implantologia, chegou a dar aulas de Química e Biologia na rede estadual. Entrou na vida pública já com profissão e negócios próprios, e isso moldou o discurso de quem nunca fez carreira na política tradicional.

Sua primeira eleição foi em 2020, quando disputou a prefeitura pelo MDB e terminou em terceiro lugar, com uma votação expressiva para um estreante. Em 2022, candidatou-se a deputado federal e, mesmo sem se eleger, somou 59.829 votos e ficou como primeiro suplente do MDB. Em agosto de 2023, assumiu a vaga de Célio Silveira na Câmara dos Deputados, onde ficou até dezembro e ganhou projeção pela articulação de recursos para Anápolis.

Esse capital o levou de volta à disputa municipal em 2024. Filiado ao PL e com o apoio direto de Jair Bolsonaro, foi ao segundo turno contra o petista Antônio Gomide e venceu com cerca de 58% dos votos válidos. Assumiu a prefeitura em 1º de janeiro de 2025.

Em 2026, porém, veio a decisão mais arriscada da carreira. Eleito pelo PL, partido comandado em Goiás pelo senador Wilder Morais, candidato ao governo, Márcio escolheu apoiar o governador Daniel Vilela (MDB), candidato à reeleição. Ele lembrou que Daniel o apoiou em 2024, mesmo contrariando o então governador Ronaldo Caiado, que tinha outro candidato na cidade, e que o governo estadual ajudou a resolver problemas antigos de Anápolis. A reação dentro do PL foi imediata: a executiva estadual se reuniu para discutir a possibilidade de um processo disciplinar por infidelidade partidária, que poderia levar à expulsão, e a situação do prefeito no partido segue sem desfecho. Márcio respondeu em vídeo, dizendo que seguia leal à direita, com Flávio Bolsonaro para presidente, Gustavo Gayer para o Senado e Major Vitor Hugo para a Câmara, e que recebeu ligação do próprio Flávio.

Foi uma aposta alta, contra o candidato do seu partido ao governo. E ela deu certo.

Daniel Vilela foi reeleito, e Wilder Morais perdeu a disputa. O prefeito saiu do embate com os resultados que se seguem, e não só em Anápolis.

O caso mais emblemático é o de Carol do Amiltinho. Ela assumiu a candidatura à Assembleia Legislativa depois da morte do marido, Amilton Filho, num acidente a poucos dias da eleição, e terminou como a deputada estadual mais votada de Goiás, com 109.002 votos. Em Anápolis, onde teve o apoio do prefeito, chegou a 30,19%. Márcio dedicou o resultado à memória de Amilton, e a campanha dela mostrou o peso que o prefeito tem na cidade: quando ele se engaja, o eleitor acompanha.

No Senado, Gustavo Gayer, que contou com o apoio do prefeito, foi o senador mais votado do estado. Em Anápolis, teve 32,60%, bem acima da média estadual. Márcio dividiu seus votos para o Senado entre Gayer e Gracinha Caiado, e os dois foram eleitos. Na Câmara, Major Vitor Hugo e Célio Silveira, os dois deputados federais que Márcio apoiou, foram eleitos. Célio é justamente o deputado que abriu espaço para Márcio assumir a cadeira em 2023, e agora foi reeleito com o apoio dele. Na cidade, Vitor Hugo ficou entre os três mais votados, com 8,02%.

A mesma lógica apareceu na disputa majoritária. Flávio Bolsonaro teve 63,08% dos votos em Anápolis, contra 21,84% de Lula, quase 10 pontos acima dos 53,60% que obteve em todo o estado, onde liderou o primeiro turno. Daniel Vilela teve 59,66% no município, enquanto o candidato do PL ao governo, Wilder Morais, ficou quase 40 pontos percentuais abaixo de Flávio na cidade. O eleitor de Anápolis não seguiu a sigla no automático. Seguiu a orientação de quem confia.

O outro lado do placar também diz muito. Nenhum dos 11 candidatos do Republicanos ligados a Anápolis, partido do ex-prefeito Roberto Naves, adversário de Márcio em 2020 e 2024, conseguiu se eleger: foram quatro para a Assembleia, entre eles Vivian Naves, que buscava a reeleição, e sete para a Câmara dos Deputados. Também ficou de fora Suzana Carvalho (PT), da chapa de Gomide. Os dois nomes com base eleitoral em Anápolis que se elegeram fora do grupo do prefeito foram os petistas Rubens Otoni, para deputado federal, e Antônio Gomide, para deputado estadual. É justo reconhecer que os dois já têm trabalho de longo prazo na cidade: Otoni conquistou o sétimo mandato consecutivo, e Gomide, que já foi prefeito, o terceiro na Assembleia. O que o eleitor premiou nos dois casos foi uma trajetória antiga, enquanto o desempenho do grupo do prefeito foi construído em menos de dois anos de mandato.

E por que o eleitor o acompanha? Porque Márcio construiu uma relação direta com a população. Ele grava vídeos na rua, conversa com as pessoas, mostra a obra e explica a decisão. Com isso criou uma audiência de 1,3 milhão de seguidores no Instagram e uma aprovação de 87,45% após 20 meses de mandato, segundo pesquisa do Instituto Goiás Pesquisas feita em julho. Ele tem o tom de quem não é da política tradicional, mas governa como gestor que entrega resultado, e é essa combinação que a eleição premiou.

A pergunta agora é até onde isso pode ir. Anápolis é a terceira maior cidade de Goiás, mas historicamente tem dificuldade de transformar força local em projeção estadual. Márcio reúne o que costuma faltar: votos em escala, comunicação própria e capacidade comprovada de transferir prestígio para outros candidatos, até contra a orientação do próprio partido. Em quatro anos, foi do terceiro lugar numa eleição municipal a um peso decisivo na eleição de todo o estado. Com o resultado das urnas, o prefeito chega ao desfecho do embate em posição bem mais forte do que quando ele começou. Se mantiver a aprovação e a entrega, pode ser quem finalmente leve Anápolis ao centro da disputa estadual.

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