Sou da geração que era acionada pelo “pager” e, com a chegada do celular, minha comunicação com as lojas de fast food que eu administrava facilitou muito, acompanhada, claro, do status de ter um aparelho móvel.
Falar dos benefícios e dos malefícios que o celular trouxe para a humanidade é algo quase incomensurável. Aproximou, mas também distanciou. Democratizou a comunicação das pessoas, facilitou inúmeras operações comerciais e financeiras, mas também abriu um leque de distrações, conflitos e fraudes. Trouxe alegria, acompanhada também de sensações negativas.
Atender o celular, no passado, era um momento de satisfação. Hoje, as ligações de spam e robocalls fazem com que o som do aparelho móvel signifique o fim do prazer ou mesmo o fim do sossego, tornando um ato de coragem atendê-lo.
Nas últimas semanas tenho registrado, diariamente, uma média de 60 chamadas no meu celular. Chamadas que antes eram mínimas e, em geral, de contatos registrados, foram substituídas por sistemas automáticos de empresas que só transferem a chamada quando alguém atende. Muitas vezes você atende e ninguém fala, e surge a pergunta: será que o meu “alô” se tornou uma ferramenta de golpe?
São chamadas de teste de números ativos, que algumas empresas fazem apenas para verificar se o número está funcionando. Se você atende, o sistema marca seu número como “válido” e ele passa a integrar outras listas de telemarketing.
Minuto a minuto, tentativas de golpes e fraudes de alguns criminosos tiram o prazer de dizer “alô”. Assim, vamos sendo praticamente açoitados auricularmente pela inteligência artificial e por robôs, que conseguem ligar automaticamente o dia todo, o que aumenta a minha ansiedade e o medo de atender, porque meu cérebro passa a associar o toque do telefone a algo desagradável ou suspeito, criando uma sensação constante de alerta de que posso ser fraudado.
Embora a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) seja responsável por fiscalizar ligações abusivas ou de telemarketing, e outros órgãos afirmem atuar para coibir essa aflição diária das pessoas, continuamos atormentados pelo toque do celular.

Embora existam ferramentas como o “Não Me Perturbe”, ou mesmo deixar o aparelho em modo silencioso, ao final de cada dia o resultado aparece na caixa de chamadas: dezenas de registros. E, novamente, no país das insanidades, vamos nos tornando cada vez mais desconfiados e irritados ao atender o telefone.
No fim das contas, aquilo que nasceu para aproximar pessoas e facilitar a vida transformou um gesto simples em um momento de suspeita. O telefone toca, e antes mesmo de atender já nos perguntamos: será alguém importante ou mais uma tentativa de nos enganar? Assim, em tempos de tecnologia avançada e comunicação instantânea, atender um celular — ironicamente — passou a exigir algo que antes não era necessário: coragem.