Você já saiu de casa e parou no caminho porque não lembrou se trancou a porta? Já leu uma mensagem no celular e, dois minutos depois, não fazia ideia do que tinha acabado de ler? Já sentiu a cabeça pesada, como se tivesse feito muita coisa e, ao mesmo tempo, nada de útil? Você já se percebeu fazendo inúmeras atividades ao mesmo tempo e notou que não conseguiu fazer nada ainda?
Se a resposta for sim, fique tranquilo, você não está sozinho. Essa sensação virou tão comum que a gente normaliza e trata como se sempre tivesse sido desta maneira. Mas não é. É o cérebro pedindo socorro, e a maioria de nós não está ouvindo.
Não é frescura, nem falta de memória, nem idade chegando. É algo que a ciência já entende bem, que a psicopedagogia estuda há décadas, e que tem explicação e solução. E, para entender, não precisa de palavras difíceis.
O que está acontecendo com a nossa cabeça?
Imagine que em seu cérebro possua uma mesa. Trata-se de uma mesa pequena, que tem capacidade para poucas coisas ao mesmo tempo em cima dela. Quando você está fazendo uma leitura, o texto vai pra mesa. Quando alguém fala com você, a mensagem também vai. Quando o celular recebe notificações, mais uma coisa entra. Se a mesa enche demais, as coisas começam a cair.
É mais ou menos isso que acontece dentro da nossa cabeça. O neuropsicólogo Russo Alexander Luria, uma das maiores referências em neuropsicologia, dedicou seus estudos à entender como o cérebro organiza atenção, memória e percepção. Em suas obras, ele mostrou que essas funções não trabalham sozinhas ,funcionam como os pés dessa mesa a que citei. Quando uma delas está sobrecarregada, tudo desaba. Não é que a pessoa não consiga aprender. É que o sistema está pedindo mais do que aguenta.
A parte da mente que trabalha em função de segurar as informações no momento presente é o que se chama de memória de trabalho. Pense nela como a memória RAM do computador: ela segura o que você está usando agora. Mas tem limite. Quando enche, a informação entra, mas não fica e dependendo da sobrecarga ainda derruba as informações já contidas. Ou seja, sua cabeça não está ruim, ela está cheia demais.
Por que isso piorou na atualidade?
Há vinte anos atrás, a informação chegava em doses. O jornal de manhã, o telejornal à noite, uma conversa com o vizinho, a rádio a caminho do serviço. Hoje, a informação chega o tempo todo, e de todos os lados, sem pedir licença. O celular que vibra a cada minuto, as redes sociais com conteúdo infinito, os grupos de mensagem que nunca param, as ligações de telemarketing, dentre outros.
E tem mais um agravante: Vivemos em constante pressão por fazer tudo ao mesmo tempo e por provar o nosso valor e utilidade. Trabalhar, atender as expectativas de nosso ambiente laborativo, responder a família, acompanhar notícias, cuidar da casa, estar presente nas redes. A multitarefa virou uma exigência rotineira que enganosamente tem sido nossas réguas, e diferente do que imaginemos é ela uma das maiores inimigas de uma mente descansada. O cérebro não faz duas coisas ao mesmo tempo. Ele alterna entre uma e outra, rapidamente. E cada alternância custa energia, bem como um telefone.
O psicólogo bielorrusso Lev Vygotsky, um dos nomes mais significantes da psicologia e da psicopedagogia, já dizia em medos do século XX que aprender é um processo que envolve mediação, tempo e vínculo. Não se trata de uma transmissão de dados. Quando a pessoa está bombardeada de estímulos, sem espaço para processar o que recebe, a aprendizagem fica bloqueada. Não é falta de inteligência. É falta de organização.
Os sinais que o corpo e a mente apresentam
O cérebro não grita, ele sussurra. E, quando a gente não escuta, ele fala mais alto. Os sinais aparecem no dia a dia, mas a gente costuma ignorar:
- Esquecimentos frequentes – esquecer compromissos, nomes de pessoas próximas, o que acabou de ler.
- Dificuldade de concentração – começar a ler algo e perceber que não registrou nada, ou simplesmente deixar a mente vagar.
- Cansaço que não passa com sono – dormir, mas acordar já exausto, como se tivesse trabalhado noite toda.
- Irritabilidade sem motivo – pequenas coisas que antes passavam despercebidas, mais agora irritam.
- Sensação de “cabeça cheia” – aquele peso, como se a mente estivesse abarrotada.
- Dificuldade de tomar decisões simples – escolher o cardápio do dia vira um problema.
Ignorar esses sinais é como ignorar a luz da gasolina no painel do carro. O motor pode até funcionar por mais um tempo, mas vai parar.
O que a ciência diz:
A boa notícia é que a explicação é mais simples do que parece. Quando aprendemos algo, o cérebro precisa de duas coisas: receber a informação e ter tempo para “armazena-la”. É como o computador: você pode estar digitando um texto, mas se não salva e a bateria acabar, perde tudo. O cérebro funciona parecido. Ele precisa de momentos de pausa para consolidar o que recebeu, para “salvar o arquivo”.
O psicólogo suíço Jean Piaget, talvez o nome mais conhecido quando se trata dos processos de aprendizagem da mente, mostrou que aprender é um processo de equilíbrio: a mente recebe o que vem de fora, reorganiza o que já tem dentro, e só então transforma isso em conhecimento novo, e isso demanda tempo, não dá pra atropelar.
Em resumo: a ciência não diz que o problema é a tecnologia, e sim a ausência de pausa. O cérebro precisa de respiro. E esse respiro não é luxo, é necessidade.
E agora, o que devo fazer no dia a dia?
A resposta a essa pergunta é simples e não custa nada. Agora que a gente entende o que está acontecendo, vem a parte prática:
- Pausas curtas e de verdade: De tempos em tempos, durante o trabalho ou o estudo, pare, levante, olhe pela janela, respire. Cinco minutos de pausa valem mais que trinta minutos de esforço sem concentração.
- Uma coisa de cada vez: A ideia de cumprir multitarefas é ilusória. Fazer uma coisa de cada vez, com atenção, é mais rápido e menos cansativo do que tentar fazer tudo junto.
- Reduzir as notificações: Cada toque do celular é uma interrupção. Desligue as que não são essenciais, o resto pode esperar. E se você e daqueles que não aguentam ficar longe do telefone sem olhar, o afaste de você por alguns períodos, pois só a sua mera presença já é prejudicial a sua atenção.
- Momentos do dia sem tela: Retire momentos do seu dia tais como a hora e comer, a hora de ir ao banheiro e principalmente antes de dormir. A luz da tela e o fluxo de informações atrapalham o cérebro de “desligar” para descansar. Trinta minutos sem celular antes de dormir já fazem diferença.
- Descanso não é perda de tempo: Talvez a ideia mais importante de todas, afinal nem o seu celular que é seu fiel acompanhante, funciona sem recarregar, imagina seu cérebro. É no descanso que o cérebro se reorganiza, é nele que a aprendizagem acontece de fato.
Colocando em prática
Como neuropsicopedagogo, eu não poderia encerrar sem deixar sugestões práticas que qualquer pessoa pode adotar, sem custo nenhum. Exercitar o cérebro não precisa de aplicativo pago, equipamento caro e nem curso. Algumas das melhores ferramentas estão ao seu alcance há muito tempo e você nunca as olhou como tal.
Palavras cruzadas e cruzadinhas: Aquelas que vendem em bancas de revista, que vem nos jornais, nos livrinhos de passatempo. Exigem que o cérebro busque informações na memória, conecte letras, mantenha o foco em uma única tarefa. É um excelente exercício de memória, atenção e vocabulário, tudo de uma vez só, fora o fato que é divertido e pode envolver toda a família. E o preço costuma ser muito baixo.
Sudoku, Uno e jogos de lógica: Um dos mais eficazes exercícios para a memória de trabalho, obriga a mente a segurar várias informações ao mesmo tempo, testar hipóteses e planejar os próximos passos. Não é sobre matemática, é sobre lógica e organização mental.
Jogos de memória com cartas: Aquele em que você espalha cartas viradas para baixo e precisa encontrar os pares. Simples, divertido e excelente para treinar a atenção e a memória visual. Pode ser jogado com crianças, com idosos, com qualquer pessoa.
Xadrez e damas: Não precisam ser jogados em nível profissional, o simples ato de pensar no próximo movimento, antecipar a jogada do adversário e planejar uma estratégia já é um exercício poderoso para as funções executivas do cérebro, aquelas que organizam, planejam e controlam a atenção.
Leitura de verdade, sem tela: Ler materiais físicos como livros, revistas e jornais exigirá de você um tipo de atenção mais sustentada do que a leitura em tela, que está sempre a um clique de interrupção. E a leitura é um dos atos cognitivos mais completos que existem: envolve percepção, memória, interpretação e imaginação.
Jogos pedagógicos: Aqueles que, por trás da diversão, têm um objetivo de aprendizagem. Quebra-cabeças, jogos de coordenação motora fina e grossa, jogos de associação, tangram e percepção visual. Eles estimulam diferentes áreas cognitivas ao mesmo tempo e, o mais importante, fazem isso com muita diversão. E aprender com prazer, como nos ensinou Vygotsky, é a condição essencial para que a aprendizagem realmente aconteça.
O uso consciente do celular. Não é preciso que você abra mão de seu aparelho celular. Ele tem jogos de memória, aplicativos de Sudoku, palavras cruzadas digitais. O problema não é o celular em si, mas o uso exacerbado. Se a tecnologia for usada com intenção, um jogo de memória por dez minutos, em vez de trinta minutos de rolagem infinita nas mídias sociais, ela pode ser uma aliada do cérebro.
O analista do comportamento B. F. Skinner, uma das maiores referências da psicologia, mostrou que comportamentos que são reforçados, tendem a se repetir. Em outras palavras: se a gente começa a fazer pequenos exercícios para a mente, por mais chatos e cansativos que pareçam, você sentira em algum momento que obteve benefícios, e o próprio cérebro nos puxa de volta para eles. O segredo é começar.
Conversar, contar histórias, ouvir. Parece simples demais, mas a conversa real, cara a cara, sem tela no meio, é um exercício cognitivo completo. Ouvir exige atenção. Contar uma história exige organização de ideias e memória. E o vínculo humano, como nos ensinou Vygotsky, é o motor de toda aprendizagem.
Um convite, não uma receita
A gente cuida do corpo com uma boa refeição, exercícios e boas noites de sono. Mas esquece de cuidar da mente, como se ela fosse uma máquina que nunca precisasse de manutenção.
O cérebro cansa, a nossa memória tem limitações, a atenção se gasta, e quando a gente ignora isso, os sinais aparecem: esquecimento, cansaço, distração, irritação. Não é fracasso. É o cérebro dizendo que precisa de arrego.
A boa notícia é que os remédios são simples, pausa, atenção em uma coisa por vez, menos notificações, uma cruzadinha de vez enquanto após a leitura do jornal, uma partida de dama no fim da tarde, um livro antes de dormir, uma conversa de verdade com quem está do seu lado. Não é preciso fazer tudo de uma vez, comece com uma pausa por dia, depois, talvez, uma cruzadinha, quando já tiver se acostumado, quem sabe desligar o celular um pouco mais cedo. A mente não precisa de perfeição, precisa de respiro. E esse respiro está ao alcance de todos, inclusive do seu.