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Psicologia desafia o reinado de Medicina e revela uma sociedade cada vez mais preocupada com a própria saúde mental

Na Semana da Psicologia, celebrada em 27 de agosto, o crescimento da procura pelo curso chama atenção e acompanha uma transformação social: falar sobre terapia deixou de ser tabu e a saúde mental ganhou espaço nas conversas, nas redes sociais e na vida cotidiana
Na Semana da Psicologia, celebrada em 27 de agosto, o crescimento da procura pelo curso chama atenção e acompanha uma transformação social (Foto: reprodução)

Em uma semana dedicada à Psicologia, uma mudança chama atenção justamente entre aqueles que estão escolhendo o futuro profissional. Durante décadas, Medicina ocupou um lugar quase intocável entre os cursos mais desejados e concorridos do país. Em 2026, porém, Psicologia passou a aparecer à frente da carreira médica em determinados processos seletivos quando considerada a relação entre candidatos e vagas.

O dado não significa que Medicina tenha perdido o posto de curso mais concorrido do Brasil. Mas revela algo maior: Psicologia deixou de ser uma escolha de nicho e passou a ocupar um espaço cada vez mais importante nas escolhas de uma nova geração. E talvez a pergunta mais interessante não seja por que tantos jovens querem ser psicólogos. É por que a Psicologia passou a fazer tanto sentido para uma geração inteira.

A terapia saiu do consultório e entrou na conversa

Ansiedade, autoestima, burnout, trauma, relacionamentos, limites e autoconhecimento. Palavras que durante muito tempo ficaram restritas aos consultórios hoje fazem parte das conversas cotidianas. A terapia também mudou de lugar no imaginário social. Para muitas pessoas, deixou de representar apenas uma busca por tratamento e passou a ser associada ao autoconhecimento, à prevenção e ao cuidado com a saúde emocional.

Os números acompanham essa transformação.

Segundo o Conselho Federal de Psicologia, dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar apontam que o número de sessões de psicoterapia realizadas por psicólogos aumentou mais de 208% em 2023 em comparação com 2019, antes da pandemia.

Hoje, o Brasil possui mais de 600 mil psicólogos registrados, sendo cerca de 16,8 mil em Goiás. Não é apenas uma profissão que cresceu. A demanda por ela também mudou.

O algoritmo também entrou nessa história

Existe ainda um personagem impossível de ignorar: as redes sociais. Instagram, TikTok e YouTube transformaram a Psicologia em conteúdo diário. Psicólogos passaram a falar para milhões de pessoas sobre relacionamentos, ansiedade, autoestima, comportamento e saúde mental.

Isso ajudou a aproximar a população do tema e contribuiu para reduzir o estigma em torno da terapia. Mas existe um paradoxo: A mesma internet que democratizou o acesso à informação também pode transformar conceitos complexos em diagnósticos instantâneos. Basta alguns segundos de vídeo para alguém concluir que tem ansiedade, trauma ou que determinada pessoa é “narcisista”.

A Psicologia ganhou espaço no algoritmo. O desafio agora é impedir que o algoritmo substitua a Psicologia.

Uma geração mais consciente ou mais adoecida?

O aumento da procura por terapia pode indicar uma sociedade mais exposta ao sofrimento psicológico. Mas também pode representar uma sociedade que finalmente aprendeu a reconhecer esse sofrimento e procurar ajuda.

As duas coisas podem estar acontecendo ao mesmo tempo. A pandemia acelerou essa mudança, mas não explica tudo. A hiperconectividade, a pressão por desempenho, as transformações no mercado de trabalho, os relacionamentos mediados pelas telas e a comparação constante também mudaram a maneira como as pessoas vivem e enxergam a si mesmas.

Nesse cenário, compreender o comportamento humano ganhou ainda mais valor. E isso aparece justamente nas escolhas de quem está chegando à universidade. Talvez Psicologia esteja crescendo porque o mundo ficou mais complexo. Talvez porque falar sobre saúde mental deixou de ser tabu. Talvez porque uma geração inteira esteja tentando entender a si mesma. Ou talvez porque, depois de anos aprendendo a cuidar do corpo, a sociedade finalmente tenha percebido que a mente também precisa de atenção.

O vestibular apenas registrou o movimento. A verdadeira mudança está acontecendo do lado de fora da universidade.

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