Buscar

Cuidamos da sua privacidade

Utilizamos cookies para ver quais páginas você já viu em nosso jornal e para personalizar as propagandas para você. Ao continuar utilizando nosso site, você aceita esse uso. Por favor, leia nossa Política de Privacidade e Termos de Uso.

Quando a deficiência chega: Robert aprendeu a viver depois do câncer e hoje questiona as barreiras que ainda existem

No Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, história de Robert Antônio mostra as dores de quem precisou reaprender a viver após uma amputação e chama atenção para acessibilidade, preconceito e inclusão
Robert Antônio (Foto: Arquivo pessoal)

A deficiência nem sempre está presente desde o nascimento. Para algumas pessoas, ela chega no meio da vida, depois de uma doença, de um acidente ou de uma condição que ninguém imaginava que enfrentaria. Foi assim com Robert Antonio, que precisou amputar uma das pernas depois de enfrentar um câncer.

A história de Robert começa antes da amputação. O câncer, segundo ele, foi um processo longo, que o fez compreender muitas coisas ainda antes de perder a perna. Quando finalmente passou pela cirurgia, porém, o pensamento era um só: continuar vivendo. “O câncer é um processo longo, então aprendi muito antes de tirar a perna. Após retirar, só queria viver, intensamente, aproveitar a vida”, conta.

A frase parece simples, mas carrega uma mudança profunda. Robert não precisou apenas aprender a caminhar novamente ou adaptar tarefas cotidianas. Precisou reconstruir uma relação com o próprio corpo e descobrir como viver em um mundo que nem sempre está preparado para receber pessoas com diferentes necessidades.

E há uma dor que não aparece em fotografias, nem sempre pode ser compreendida por quem olha de fora: a dor fantasma, uma sensação dolorosa que pode permanecer mesmo depois da amputação. “A dor fantasma, aprender a fazer tudo na prática”, resume ele ao falar dos primeiros desafios.

Apesar das dificuldades, Robert faz questão de deixar claro que a amputação não o impediu de continuar fazendo as coisas que já fazia. “Na verdade, eu faço tudo o que fazia. Às vezes com mais cuidado e atenção, mas faço.”

O corpo mudou. A mente também

Quando perguntado se a perda da perna mudou a maneira como passou a enxergar o próprio corpo, Robert surpreende pela resposta. “Não mudou. Mudou a mente, a maneira de sentir e de ver a situação.”

É justamente nessa mudança de olhar que a história dele ganha outra dimensão. A deficiência adquirida não significa apenas aprender uma nova forma de realizar atividades. Existe também um processo emocional de adaptação, de reconhecimento dos próprios limites e, ao mesmo tempo, de descoberta das possibilidades que permanecem.

Robert Antônio Carvalho, após amputar uma das pernas ao enfrentar um câncer agressivo (Foto: arquivo pessoal)

Robert diz que passou a viver mais o presente e a observar as situações e as pessoas de outra maneira: “Vivendo um dia de cada vez, tentando fazer e aprender o máximo de coisas possíveis.”

A experiência também modificou a maneira como ele percebe as relações humanas: “Passei a ver o outro lado das pessoas, das situações, sentir mais o momento.”

Quando a deficiência poderia acontecer com qualquer pessoa

No Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado nesta segunda-feira (21), a história de Robert também provoca uma reflexão sobre uma realidade que muitas vezes é esquecida: nem toda pessoa com deficiência nasceu com uma deficiência.

A data foi instituída pela Lei nº 11.133/2005 e tem como objetivo ampliar a conscientização sobre direitos, cidadania, participação social, acessibilidade e combate ao preconceito.

Para Robert, a deficiência adquirida deveria fazer com que mais pessoas percebessem que essa realidade não está tão distante quanto muitos imaginam. “Penso que é mais comum do que se imagina”. Dados do IBGE mostram que 14,4 milhões de brasileiros com dois anos ou mais tinham alguma deficiência em 2022, o equivalente a 7,3% dessa população. O levantamento considera diferentes tipos de impedimentos e limitações.

A barreira nem sempre está no corpo

Para quem passa a viver com uma deficiência, as dificuldades não terminam quando acaba o tratamento ou quando a pessoa aprende a utilizar uma prótese, uma cadeira de rodas ou outro recurso de apoio.

Muitas vezes, elas continuam nas ruas, nos prédios, no transporte, no trabalho e até na maneira como outras pessoas se relacionam com ela. Robert reconhece que ainda existem diferenças e situações difíceis. Ajudar não significa necessariamente incluir. Uma adaptação feita sem ouvir quem vai utilizá-la pode não resolver o problema.

A própria legislação brasileira estabelece que a pessoa com deficiência tem direito ao trabalho em ambiente acessível e inclusivo, em igualdade de oportunidades, e proíbe discriminação desde o recrutamento até a permanência e a ascensão profissional.

Empresas com 100 ou mais empregados devem preencher de 2% a 5% de seus postos com pessoas com deficiência ou beneficiários reabilitados, conforme estabelece o artigo 93 da Lei nº 8.213/1991. O Ministério do Trabalho e Emprego destaca, porém, que a inclusão envolve também ações de empregabilidade e sensibilização dos empregadores.

Dados do IBGE apontam diferenças importantes na participação das pessoas com deficiência no mercado de trabalho e no acesso ao emprego formal.

O que Robert gostaria que as pessoas entendessem

Talvez uma das maiores contribuições da história de Robert seja justamente tirar a deficiência do lugar de algo distante. Ele não nasceu com uma perna amputada. Viveu uma vida antes do câncer. Teve uma rotina, planos e uma relação com o próprio corpo que precisou ser reconstruída depois da doença.

Por isso, quando fala sobre sua experiência, não quer apenas contar o que perdeu. Quer falar sobre o que permaneceu. “Eu faço tudo o que fazia. Às vezes com mais cuidado e atenção, mas faço.” Também não romantiza o processo. A dor existe. A adaptação é difícil. Há situações que machucam física e emocionalmente. E ainda existem barreiras que poderiam ser evitadas se as pessoas fossem ouvidas.

Mas há algo que Robert parece ter aprendido durante esse caminho: não adiar a vida. “Sentir mais o momento. Olhem ao seu redor as coisas, sintam tudo com intensidade.”

No Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, sua história lembra que inclusão não deveria depender de alguém passar por uma doença ou acidente para entender o assunto. Talvez a verdadeira mudança comece justamente antes disso: quando uma sociedade passa a construir espaços acessíveis não porque conhece alguém com deficiência, mas porque entende que qualquer pessoa pode, em algum momento da vida, precisar deles.

E, para Robert, depois de tudo o que viveu, continuar vivendo já não significa simplesmente seguir em frente. Significa sentir a vida enquanto ela acontece

Artigo anterior
Anápolis recebe 9ª etapa do Campeonato Goiano de Kart neste sábado

Relacionado à este artigo: