A dupla sertaneja Jorge & Mateus está fora da programação de Réveillon de duas das principais capitais do Nordeste. Os shows que seriam realizados em Fortaleza (CE) e Recife (PE) foram cancelados na terça-feira (3), depois que declarações políticas do cantor Jorge provocaram uma onda de críticas nas redes sociais.
A polêmica começou após a circulação de um vídeo gravado em 20 de outubro, durante um encontro de artistas sertanejos com o então candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), em Nerópolis, Goiás. Na ocasião, Jorge declarou: “Pode chorar, mas eu não voto no PT”. A fala ganhou repercussão após o resultado das eleições e levou internautas a questionarem a presença da dupla nas festas nordestinas.
Em Fortaleza, o prefeito Evandro Leitão anunciou que a participação dos artistas no Réveillon 2027 havia sido cancelada. Segundo ele, a repercussão da polêmica desviava o foco da proposta da festa. A administração municipal informou que o encerramento ocorreu em comum acordo e que os cachês seriam pagos por patrocinadores privados, sem utilização de recursos municipais.
No Recife, a apresentação estava prevista para 27 de dezembro, na programação da Virada Recife 2027. O prefeito Victor Marques também anunciou a retirada da dupla, afirmando que não havia mais clima para a participação dos sertanejos em uma celebração que deveria representar união e fraternidade.
A decisão, entretanto, abre espaço para uma discussão que vai além da escolha de atrações musicais. Até que ponto o posicionamento político de um artista deve interferir em sua contratação para um evento público? E quando a pressão popular passa a determinar quem pode ou não ocupar um palco?
É legítimo que o público manifeste insatisfação, deixe de consumir determinado artista e cobre explicações dos gestores. Da mesma forma, artistas têm direito à liberdade de manifestação política. O problema está em transformar divergências eleitorais em uma espécie de julgamento coletivo, especialmente quando a situação envolve uma dupla, mas a manifestação que desencadeou a crise foi individual.
Mateus, inclusive, não participou do encontro político mencionado e não teve seu posicionamento associado publicamente ao episódio. Ainda assim, foi diretamente atingido pelas consequências profissionais da polêmica.
Jorge se pronunciou na quarta-feira (4), negando ter feito declarações depreciativas sobre o Nordeste. O cantor afirmou que as manifestações atribuídas a ele não são verdadeiras e reforçou que seu posicionamento político é individual, sem representar o parceiro ou a trajetória da dupla. Também declarou ter carinho, admiração e gratidão pelo povo nordestino.
Quem pode substituir a dupla?
Até o momento, nenhuma das duas prefeituras divulgou oficialmente os nomes dos artistas que poderão ocupar os espaços deixados por Jorge & Mateus.
Em Fortaleza, a administração municipal ainda não anunciou uma nova atração. Entre os artistas já confirmados para o Réveillon estão Ivete Sangalo, Alok, Luísa Sonza, Alceu Valença e Diogo Nogueira.
No Recife, a programação já conta com nomes como Wesley Safadão, Xand Avião, Nattan, Ludmilla e Priscila Senna. Também não há substituto anunciado para a apresentação que estava prevista para 27 de dezembro. Portanto, embora existam especulações sobre possíveis mudanças na grade, não há, até agora, cantores oficialmente cotados ou confirmados para substituir a dupla.
A pressão das redes sociais pode representar a voz de uma parcela da população, mas decisões dessa dimensão também exigem coerência dos gestores e respeito aos princípios democráticos. Da mesma forma, o dinheiro, a estrutura e a visibilidade de eventos públicos não devem ser utilizados como instrumentos de punição política. Entre a vontade popular e a responsabilidade administrativa, é preciso encontrar um equilíbrio que não transforme a cultura em mais um campo de disputa eleitoral.