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“O abuso pode começar com um segredo”, alerta psicólogo da DPCA

Violência sexual contra crianças e adolescentes preocupa em Anápolis; um problema que exige atenção permanente.
Valdeir Santos, CRP 09/013503, Psicólogo atuante na DPCA de Anápolis (Foto: acervo pessoal)

Em Anápolis, a realidade investigada diariamente pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) mostra que a violência sexual contra crianças e adolescentes continua sendo um problema que exige atenção permanente. E os números nacionais ajudam a entender que o fenômeno também está mudando de forma.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 aponta que, entre 2024 e 2025, a taxa de registros de estupro e estupro de vulnerável contra pessoas de 0 a 17 anos caiu 5,5%. Ao mesmo tempo, porém, outros crimes relacionados à violência sexual infantil apresentaram crescimento: os registros de aliciamento de crianças aumentaram 12,4%, os de exploração sexual infantil, 14,3%, e os crimes relacionados à produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil, 25,3%.

“Não estamos diante de um aumento uniforme, mas também de uma transformação das formas de violência”, explica o psicólogo Valdeir Santos, CRP 09/013503, que atua na DPCA de Anápolis.

O perigo pode estar dentro da própria família

Talvez uma das informações mais difíceis de aceitar seja justamente esta: o agressor nem sempre é um desconhecido. Nos registros de estupro e estupro de vulnerável de 2025 em que foi possível identificar a relação entre vítima e autor, entre as vítimas com menos de 14 anos, 59,2% dos autores eram familiares, 36,9% eram conhecidos e apenas 3,9% eram desconhecidos.

Imagem ilustrativa (Foto: reprodução)

Os casos acompanhados pela DPCA de Anápolis revelam um aspecto preocupante: muitas vezes, o perigo está dentro do próprio ambiente familiar. Familiares, padrastos e outras pessoas próximas aparecem em diversas investigações, justamente porque a relação de confiança pode facilitar o acesso à vítima e dificultar a denúncia. “Eu evitaria falar em um ‘perfil de vítima’ fechado. Qualquer criança ou adolescente pode estar exposto à violência sexual”, afirma Valdeir.

Quando uma criança precisa provar que foi vítima

Entre os casos que mais chocam pela forma como a violência foi descoberta está o de uma menina de Anápolis que, segundo relatos divulgados sobre a investigação, chegou a guardar sêmen na boca para conseguir provar à família que estava dizendo a verdade sobre o abuso cometido pelo tio.

A história provoca um questionamento: por que uma criança precisaria produzir uma prova para ser acreditada? Para o psicólogo, esse é justamente um dos pontos mais delicados quando se fala em violência sexual infantil. Uma criança pode ter medo, vergonha, confusão, dificuldade de compreender o que aconteceu ou ser ameaçada pelo próprio agressor.

Por isso, uma mudança de comportamento deve ser observada, mas não transformada automaticamente em diagnóstico. “Não existe um sinal específico que, sozinho, comprove que uma criança ou adolescente sofreu abuso sexual”, explica Valdeir. Medo, ansiedade, isolamento, irritabilidade, agressividade, alterações no sono ou alimentação, queda no rendimento escolar e comportamentos regressivos podem aparecer, mas precisam ser analisados dentro do contexto.

Outro aspecto que expõe a dimensão da violência é a existência de investigações envolvendo crianças pequenas, inclusive bebês. Em situações assim, a vítima sequer possui condições de compreender, verbalizar ou relatar o que aconteceu. Isso torna ainda mais importante a atenção dos adultos responsáveis e dos profissionais que atuam na rede de proteção. A criança pode apresentar mudanças abruptas de comportamento, sem revelar de fato que sofria abusos.

“O abuso pode começar com um segredo”

É nesse ponto que entra uma das expressões mais importantes para compreender a dinâmica da violência: o grooming, ou aliciamento. O agressor pode começar construindo confiança. Atenção diferenciada, presentes, privilégios, brincadeiras, mensagens frequentes, segredos e uma aproximação aparentemente inocente podem fazer parte de um processo gradual de manipulação.

“O abuso pode começar com um segredo”, alerta Valdeir. No ambiente digital, esse processo ganhou novas possibilidades. Redes sociais, jogos, aplicativos e celulares permitem que uma aproximação aconteça longe dos olhos dos adultos, muitas vezes durante semanas ou meses. O profissional ainda especifica que não basta ensinar crianças a terem medo de estranhos. É preciso falar sobre limites, respeito ao próprio corpo e deixar claro que segredos que causam medo ou desconforto não devem ser mantidos.

A criança não precisa apresentar provas para ser levada a sério. Diante de um relato ou suspeita, o adulto deve acolher, evitar julgamentos e buscar os órgãos responsáveis.

Como denunciar em Anápolis

  • DPCA – Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente: Rua Dez de Março, 257, Setor Central. Telefone: (62) 3328-2721.
  • Conselho Tutelar: denúncias e orientações pelo 0800 646 1114, com atendimento 24 horas.
  • Disque 100: canal nacional para denúncias de violações de direitos, inclusive contra crianças e adolescentes.
  • Polícia Militar – 190: em situações de emergência ou quando a violência estiver acontecendo naquele momento.
  • Polícia Civil – 197:

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