O que começa como uma aposta de poucos reais e uma forma aparentemente inofensiva de diversão pode se transformar em um ciclo de dívidas, mentiras, ansiedade e conflitos familiares. O avanço da dependência em plataformas de apostas esportivas e cassinos on-line, as chamadas bets, já é percebido nos consultórios de Anápolis.
O psicólogo Bruno Tavares, que atende desde 2013, afirma que não havia recebido pacientes com esse tipo de dependência até 2024. A situação mudou de forma expressiva a partir do ano seguinte.
“Atualmente, atendo oito pacientes diagnosticados com ludopatia”, relata. A ludopatia é caracterizada pela dificuldade de controlar o impulso de apostar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais, profissionais e familiares.
Um dado chama a atenção: dos oito pacientes acompanhados pelo psicólogo, sete são mulheres e apenas um é homem. Bruno ressalta, porém, que esse recorte corresponde ao próprio consultório e não significa que a dependência seja mais frequente entre o público feminino. Segundo ele, os homens ainda são mais afetados pelas apostas, mas costumam apresentar maior resistência para procurar ajuda.
Aposta deixa de ser diversão
De acordo com Bruno, a dependência não deve ser tratada como falta de força de vontade. As plataformas são estruturadas para estimular a permanência do usuário por meio de recompensas imprevisíveis, bônus, resultados rápidos e da expectativa de recuperar o dinheiro perdido.

O ciclo pode começar com uma aposta motivada pelo tédio, estresse ou curiosidade. A expectativa do resultado provoca excitação e, quando ocorre uma vitória, reforça a vontade de jogar novamente. Quando há derrota, o apostador pode tentar recuperar o valor perdido, ampliando os riscos e aprofundando o prejuízo.
“O jogo patológico é uma armadilha comportamental. Ele transforma a busca imprevisível por recompensa em um hábito que se mantém sozinho”, explica o psicólogo.
Com o tempo, a pessoa pode precisar apostar quantias cada vez maiores para sentir a mesma emoção. A diversão dá lugar à compulsão, e o jogo passa a ser utilizado como uma tentativa de aliviar ansiedade, tristeza, solidão, frustração ou dificuldades financeiras.
Mulheres entram no ciclo das apostas
A facilidade de acesso pelo celular é apontada como um dos fatores que ajudam a explicar o crescimento dos casos entre mulheres. Antes, os jogos de azar estavam associados a ambientes físicos, como bingos, bares, casas de apostas e cassinos clandestinos. Agora, as plataformas podem ser acessadas dentro de casa, no trabalho ou durante o deslocamento diário.
Segundo Bruno, para algumas mulheres, o jogo funciona como uma espécie de “anestesia temporária” diante da sobrecarga doméstica, da dupla jornada, da ansiedade e das dificuldades financeiras.
Outro fator é a divulgação feita por influenciadores nas redes sociais. A exposição de apostas como parte de uma rotina comum pode diminuir a percepção dos riscos. Bônus de cadastro e a possibilidade de apostar valores baixos também transmitem uma falsa sensação de segurança.
A promessa de transformar uma pequena quantia em um valor muito maior pode ser especialmente atraente para quem enfrenta orçamento apertado ou busca uma solução rápida para dívidas. Quando a perda acontece, porém, surge a tentativa de recuperar o dinheiro, alimentando o ciclo.
Dívidas, mentiras e isolamento
Entre os principais sinais de perda de controle estão o aumento da frequência e dos valores apostados, irritabilidade quando não é possível jogar, insônia, ansiedade, queda no rendimento profissional e abandono de compromissos.
Também são comuns mentiras para esconder quanto foi perdido, pedidos frequentes de empréstimos e discursos de que existe um método para vencer ou de que a próxima aposta será suficiente para recuperar todo o prejuízo.
Bruno alerta que essas mudanças podem ocorrer de maneira discreta e ser confundidas com estresse ou cansaço. Dos oito pacientes atendidos por ele, apenas um contou à família e procurou ajuda com o conhecimento dos parentes. Os demais iniciaram o tratamento sem revelar a situação em casa.
A dívida provocada pelas apostas vai além do saldo bancário. Ela pode gerar um estado permanente de medo, culpa e cobrança, afetando a saúde mental, os relacionamentos e a vida profissional. Em situações mais graves, o sofrimento pode estar associado à depressão e a pensamentos suicidas.
Cantores relataram danos causados pelo jogo
O problema ganhou repercussão após os cantores Hugo e Guilherme falarem publicamente sobre as consequências das apostas. Em entrevista ao jornalista André Piunti, os integrantes da dupla sertaneja relataram perdas financeiras, sofrimento emocional e impactos nos relacionamentos.
Hugo afirmou que precisou de acompanhamento psiquiátrico e que passou a recusar propostas de publicidade de empresas do setor. Guilherme contou que a dependência quase provocou o fim de seu casamento. Os depoimentos mostram que o transtorno pode atingir pessoas de diferentes faixas de renda e níveis de exposição pública.
Nilson Sousa cobra medidas em plenário
A preocupação com os efeitos das bets também foi levada ao plenário da Câmara Municipal de Anápolis pelo vereador Nilson Sousa (PSD). Ao abordar os danos provocados pelas plataformas digitais de jogos, ele defendeu o endurecimento das regras e classificou a dependência como um problema de saúde pública.
“Temos famílias destruídas com esses jogos de azar. Sabemos que não é possível banir esses jogos, mas apertar o cerco é possível. Recentemente, tivemos mudanças na publicidade das bets, mas é preciso avançar, pois se trata de um problema de saúde pública”, afirmou Nilson Sousa.
A declaração reforça o debate sobre a necessidade de ampliar a fiscalização, restringir estratégias publicitárias capazes de atingir públicos vulneráveis e oferecer atendimento às pessoas que perderam o controle sobre as apostas.
Como é realizado o tratamento
O tratamento da ludopatia pode envolver acompanhamento psicológico, avaliação psiquiátrica e mudanças práticas na rotina. Entre as medidas estão identificar os gatilhos emocionais, bloquear aplicativos, limitar temporariamente o acesso ao dinheiro e solicitar a exclusão das plataformas de apostas.
A terapia também trabalha crenças como a ideia de que o apostador possui um método infalível ou de que conseguirá recuperar as perdas na próxima tentativa. Atividades físicas, lazer e outras formas de lidar com o estresse podem ajudar a substituir a função que o jogo passou a exercer.
A família deve oferecer apoio emocional, mas sem financiar novas apostas. Bruno orienta que parentes não paguem repetidamente as dívidas sem um plano de tratamento, pois isso pode transmitir ao apostador a sensação de que sempre haverá alguém para socorrê-lo.
Humilhações, ameaças e sermões constantes também devem ser evitados. O aumento da culpa e da vergonha pode intensificar o isolamento e fazer com que a pessoa volte a apostar como forma de fuga. O recomendado é estabelecer limites, buscar acompanhamento profissional e exigir atitudes concretas, como comparecimento às consultas, bloqueio das plataformas e reorganização financeira.
Pessoas que percebam perda de controle podem procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um Centro de Atenção Psicossocial. Em situações de sofrimento intenso ou risco imediato, também é possível buscar ajuda pelo CVV, no telefone 188, ou acionar o Samu pelo 192.