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Relato de Hugo e Guilherme acende alerta para o vício em bets no Brasil

Cantores revelaram prejuízos financeiros e familiares provocados pelas apostas
O cantor Hugo Vezzani, da dupla sertaneja Hugo & Guilherme, revelou ter enfrentado um grave problema com jogos e apostas on-line (Foto: reprodução)

O que começa como uma tentativa de diversão ou de conseguir dinheiro rapidamente pode se transformar em dependência, dívidas e desestruturação familiar. O risco das apostas on-line ganhou repercussão depois que Hugo e Guilherme revelaram publicamente os problemas que enfrentaram com jogos.

Integrante da dupla sertaneja, Hugo Vezzani contou que viveu uma fase marcada pelo envolvimento descontrolado com apostas esportivas e jogos de azar. O cantor afirmou que perdeu uma quantia significativa e chegou a se sentir perdido como pessoa.

Guilherme também admitiu ter enfrentado dificuldades semelhantes. Segundo ele, o comportamento quase provocou o fim de seu casamento. Depois das experiências, os dois decidiram não aceitar propostas para divulgar casas de apostas, mesmo diante da possibilidade de receber valores elevados.

O depoimento chama a atenção porque mostra que a dependência não está restrita a pessoas com pouca renda. O transtorno pode atingir diferentes grupos sociais e comprometer não somente o patrimônio, mas também a saúde mental, os vínculos familiares e a capacidade de tomar decisões.

O que são as bets

A palavra “bet” significa aposta em inglês. No Brasil, o termo passou a identificar principalmente as plataformas digitais que recebem apostas em partidas de futebol, outras competições esportivas e jogos virtuais.

Nas chamadas apostas de quota fixa, a pessoa sabe antecipadamente quanto poderá receber caso acerte o resultado. A aparente simplicidade, o acesso pelo celular e a possibilidade de apostar a qualquer horário ajudaram a popularizar o serviço.

As apostas esportivas dessa modalidade foram legalizadas no Brasil em 2018. Uma nova legislação, aprovada em 2023, estabeleceu regras para o funcionamento das empresas e incluiu os jogos on-line. Desde 2025, as plataformas autorizadas nacionalmente precisam utilizar endereços terminados em “.bet.br”.

A regulamentação das empresas, entretanto, não significa que apostar deixou de representar risco. As chances continuam organizadas de maneira a garantir vantagem financeira às plataformas ao longo do tempo.

Quando apostar deixa de ser diversão

O transtorno do jogo é reconhecido como uma dependência comportamental. A pessoa pode perder o controle sobre o tempo e o dinheiro utilizados, mesmo percebendo que o comportamento está prejudicando sua vida.

Um dos principais sinais aparece quando o jogador tenta recuperar imediatamente o valor perdido. Depois de uma derrota, ele faz uma nova aposta acreditando que o próximo resultado resolverá o prejuízo. Quando perde novamente, aumenta os valores e aprofunda o endividamento.

O ciclo também pode envolver mentiras, empréstimos, venda de bens e utilização do dinheiro reservado para alimentação, aluguel, contas domésticas ou medicamentos. Em situações mais graves, a pessoa passa a esconder o problema e se afasta da família por vergonha ou medo de ser confrontada.

Alterações no sono, irritação, ansiedade, tristeza persistente e preocupação constante com os jogos também são sinais de alerta. A dependência pode afetar o rendimento profissional, provocar discussões dentro de casa e comprometer relacionamentos.

No caso de Hugo e Guilherme, as consequências ultrapassaram as perdas financeiras. Hugo descreveu o período como uma fase triste e afirmou que encontrou nas apostas uma espécie de refúgio. Guilherme relatou que o jogo colocou seu casamento em risco.

Problema cresce no Brasil

A rápida expansão das bets transformou a dependência em uma preocupação de saúde pública. Um levantamento nacional utilizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde aponta que aproximadamente 12,7 milhões de brasileiros apresentam algum nível de uso arriscado de jogos de apostas.

Estudo divulgado em 2025 estimou em pelo menos R$ 38,8 bilhões por ano os custos econômicos e sociais associados ao jogo problemático no país. O cálculo considera consequências como depressão, perda de emprego, afastamento do trabalho, tratamentos médicos, perda de moradia e mortes por suicídio.

A estimativa não representa uma contagem individual de mortes ocorridas no Brasil. Também não significa que toda pessoa endividada por apostas desenvolverá depressão ou tentará tirar a própria vida. O suicídio é um fenômeno complexo e não possui uma única causa.

No entanto, a combinação de dívidas, vergonha, conflitos familiares, isolamento e sofrimento emocional pode aumentar a vulnerabilidade de quem já enfrenta problemas de saúde mental. Por isso, a dependência não deve ser tratada apenas como falta de responsabilidade ou força de vontade.

Há casos em que famílias perdem economias construídas durante anos. Em outros, o apostador utiliza empréstimos, cartões, dinheiro de parentes e até recursos destinados às necessidades dos filhos. Quando a dimensão do prejuízo aparece, muitos não conseguem imaginar uma saída.

Publicidade amplia a exposição

As casas de apostas ganharam espaço em campeonatos, transmissões esportivas, uniformes de clubes, festas, programas e redes sociais. A presença constante ajuda a normalizar a prática e pode produzir a impressão de que apostar é uma forma simples de ganhar dinheiro.

Bônus, notificações e apostas realizadas durante as partidas incentivam decisões rápidas. Pequenas vitórias podem gerar uma sensação de controle, embora os resultados dependam de fatores que o jogador não domina.

Celebridades e influenciadores também possuem papel importante nesse cenário. Ao associarem suas imagens às plataformas, podem transmitir confiança a um público que nem sempre conhece os riscos.

A decisão de Hugo e Guilherme de recusar publicidade do setor tem relação direta com o que viveram. Para os sertanejos, divulgar as plataformas depois dos prejuízos sofridos significaria incentivar outras pessoas a entrar em um comportamento que trouxe consequências graves para ambos.

Família precisa acolher e estabelecer limites

Quando a dependência é descoberta, o primeiro impulso dos familiares pode ser discutir, acusar ou exigir que a pessoa pare imediatamente. Embora a revolta seja compreensível, humilhações podem aumentar a vergonha e dificultar a procura por ajuda.

Acolher não significa pagar todas as dívidas sem estabelecer limites. A família pode proteger os recursos destinados às despesas essenciais, evitar fornecer dinheiro para novas apostas e ajudar o jogador a organizar as obrigações financeiras.

Também é recomendável bloquear o acesso às plataformas, desativar notificações e utilizar a ferramenta de autoexclusão disponibilizada pelo governo federal. O sistema impede o acesso do CPF cadastrado às casas de apostas autorizadas e interrompe o envio de publicidade direcionada.

Essas medidas criam barreiras importantes, mas não substituem o tratamento. É necessário compreender quais emoções, dificuldades ou situações levaram a pessoa a procurar as apostas como fuga.

Onde procurar ajuda

O atendimento pode começar em uma Unidade Básica de Saúde. Quando houver necessidade de acompanhamento especializado, o paciente poderá ser encaminhado a um Centro de Atenção Psicossocial.

O Meu SUS Digital também oferece um autoteste para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. Dependendo do resultado, o usuário pode receber orientação ou ser encaminhado para teleatendimento especializado. Familiares também podem buscar acolhimento.

Se a pessoa falar em morte, demonstrar intenção de se ferir ou afirmar que não existe saída, ela não deve permanecer sozinha. É necessário procurar atendimento de emergência ou acionar o Samu pelo telefone 192. O Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo número 188.

O depoimento de Hugo e Guilherme mostra que admitir o problema pode ser o início da recuperação. A dívida precisa ser enfrentada, mas o cuidado não pode ficar restrito ao dinheiro. Por trás das perdas financeiras pode existir uma dependência que exige acolhim

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