O mês de conscientização pelo fim da violência contra a mulher chega aos últimos dias diante de um cenário preocupante em Goiás. Mesmo com campanhas, mudanças na legislação e ampliação dos canais de denúncia, o número de feminicídios mais que dobrou no estado no primeiro semestre de 2026.
Dados do Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher mostram que Goiás registrou 47 feminicídios entre janeiro e junho deste ano. No mesmo período de 2025, haviam sido contabilizados 22 casos. A diferença representa crescimento de 113,6%, o maior aumento proporcional do país naquele intervalo.
Os registros continuaram avançando durante o segundo semestre. Em 23 de agosto, uma mulher foi encontrada morta dentro de casa em Anicuns, na região Oeste do estado. O caso foi contabilizado como o 52º feminicídio registrado em Goiás em 2026. A vítima possuía medida protetiva contra o ex-companheiro, apontado como suspeito do crime.
O número é preliminar e pode passar por atualizações conforme o andamento das investigações. Ainda assim, revela que o fim do Agosto Lilás não pode significar o encerramento da mobilização.
Brasil registrou recorde em 2025
No cenário nacional, 2025 terminou com o maior número de feminicídios da série histórica. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública contabilizou 1.571 vítimas, crescimento de 4% em comparação com 2024.
A média foi de 4,3 mulheres assassinadas por dia por razões relacionadas à condição de gênero. Os feminicídios representaram 44,4% de todas as mortes violentas de mulheres registradas no país, o maior percentual desde a criação da tipificação penal, em 2015.
As tentativas também cresceram. Foram 4.189 sobreviventes em 2025, aumento de 5,9% em relação ao ano anterior. Para cada feminicídio consumado, o país registrou quase três tentativas.
Os dados do primeiro semestre de 2026 apontam uma pequena mudança no quadro nacional. Entre janeiro e junho, foram contabilizados 741 feminicídios, diante de 760 no mesmo período de 2025, redução de 2,5%.
A queda nacional, porém, não ocorreu de maneira uniforme. Enquanto alguns estados registraram redução, outros seguiram na direção contrária. Goiás apresentou a maior alta percentual, acompanhado por estados como Sergipe, Amazonas, Santa Catarina, Paraná e São Paulo.
A comparação mostra que uma leve redução no total brasileiro não significa que o problema esteja controlado. Em determinadas áreas, a violência letal contra mulheres continua avançando rapidamente.
Centro-Oeste concentra taxas elevadas
Quando feminicídios consumados e tentativas são analisados em conjunto, o Centro-Oeste apresenta a maior taxa entre as regiões brasileiras, com 9,8 vítimas para cada grupo de 100 mil mulheres. O Norte aparece em seguida, com oito vítimas por 100 mil.
As diferenças regionais não podem ser explicadas por um único fator. Falhas na rede de proteção, distância dos serviços especializados, dependência financeira, circulação de armas e dificuldades para fiscalizar medidas protetivas ajudam a formar o cenário.
O machismo estrutural também ocupa lugar central nessa violência. Em ambientes onde ainda se considera que o homem possui autoridade sobre a companheira, comportamentos como ciúme excessivo, vigilância, proibição de trabalhar, controle do dinheiro e isolamento da mulher podem ser tratados como normais.
Não se trata de afirmar que o machismo pertence exclusivamente a uma região. Ele está presente em todo o país, nas cidades grandes e pequenas, em diferentes grupos sociais e níveis de renda. Entretanto, em locais onde valores patriarcais permanecem mais enraizados e a rede de atendimento é limitada, a mulher pode enfrentar mais obstáculos para reconhecer a violência, denunciar e conseguir proteção.
Crime geralmente começa antes da morte
O feminicídio raramente é um acontecimento isolado. Em muitos casos, ele representa a última etapa de um ciclo iniciado com ameaças, humilhações, controle, perseguição, violência patrimonial e agressões físicas.
O rompimento do relacionamento costuma ser um dos momentos de maior risco. O agressor, acostumado a exercer controle, pode interpretar a separação como perda de poder. Por isso, ameaças feitas por companheiros ou ex-companheiros precisam ser tratadas com seriedade.
A existência de uma medida protetiva também não elimina automaticamente o perigo. O instrumento pode determinar o afastamento do agressor, proibir contato e restringir o porte de arma, mas precisa ser acompanhado por fiscalização, atendimento rápido e integração entre Polícia, Justiça, assistência social e saúde.
Em 2025, 148 mulheres foram assassinadas no Brasil mesmo estando protegidas por medidas de urgência. O dado reforça que a concessão da proteção deve ser acompanhada por mecanismos capazes de reagir quando a ordem judicial é desrespeitada.
O que caracteriza o feminicídio
O feminicídio ocorre quando uma mulher é morta por razões relacionadas à sua condição de gênero. A classificação inclui crimes praticados em contextos de violência doméstica e familiar ou motivados por menosprezo e discriminação contra mulheres.
Desde 2024, o feminicídio é considerado um crime autônomo no Código Penal. A pena varia de 20 a 40 anos de prisão e pode aumentar diante de circunstâncias agravantes.
A mudança endureceu a punição, mas a legislação, sozinha, não consegue impedir os crimes. A prevenção depende da identificação dos primeiros sinais, da resposta rápida às denúncias e da transformação de comportamentos que naturalizam o controle e a violência.
Agosto Lilás chega ao fim mas mobilização precisa continuar
Instituído nacionalmente em 2022, o Agosto Lilás é destinado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Ao longo do mês, órgãos públicos e entidades promovem palestras, campanhas e ações para divulgar a Lei Maria da Penha e os serviços disponíveis.
O encerramento da campanha diante do aumento de 113,6% em Goiás expõe a distância entre a conscientização e a realidade enfrentada pelas vítimas. Informar é necessário, mas a redução dos crimes também exige delegacias estruturadas, abrigos, assistência jurídica, autonomia financeira e atendimento psicológico.
A prevenção precisa envolver escolas, famílias, empresas, instituições religiosas e comunidades. Ensinar meninos e homens a respeitar a autonomia das mulheres também faz parte do enfrentamento. Ciúme, posse e controle não são demonstrações de amor.
Como pedir ajuda
Mulheres em situação de violência podem procurar uma delegacia, uma Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher ou solicitar uma medida protetiva. Em Goiás, o aplicativo Mulher Segura permite comunicar ocorrências, localizar unidades policiais e pedir atendimento de emergência.
O Ligue 180 funciona gratuitamente durante 24 horas e oferece informações, orientação e encaminhamento à rede de proteção. Em situações de emergência ou risco imediato, a Polícia Militar deve ser acionada pelo telefone 190.
Familiares, vizinhos e amigos também podem denunciar. Ao perceber ameaças, gritos, agressões, perseguição ou controle excessivo, a recomendação é oferecer apoio sem culpar a vítima e procurar os serviços responsáveis.
O Agosto Lilás termina, mas os números mostram que a violência não acompanha o calendário. Enquanto mulheres continuarem sendo perseguidas e mortas por tentarem decidir sobre a própria vida, a prevenção precisará ser uma responsabilidade permanente de toda a sociedade.