Vinte e oito anos depois do acidente que marcou para sempre a vida de diversas famílias, Solange Cândida convive com a saudade da mãe, Maria Cândida de Oliveira, e da filha, Ana Karolyna de Oliveira, vítimas da tragédia dos romeiros. A ausência, segundo ela, esteve presente desde os primeiros dias. Estava nas cadeiras vazias, nas datas comemorativas, nos silêncios dentro de casa e na falta de duas pessoas que ocupavam lugares diferentes, mas igualmente importantes em sua vida.
Com o passar dos anos, porém, Solange aprendeu que seguir em frente não significava esquecer. “Eu aprendi a conviver com essa ausência não tentando esquecer, mas lembrando com amor”, conta com exclusividade ao Diário da Redação.
As lembranças passaram a fazer parte da rotina. As histórias são contadas, os momentos felizes são recordados e, entre uma memória e outra, também há espaço para o sorriso. “Elas fazem parte da nossa família até hoje”, afirma.
A fé como caminho
Para Solange, a fé foi fundamental para atravessar os momentos mais difíceis. Ela conta que, quando não encontrava forças sequer para levantar, foi na fé que encontrou amparo para continuar. “O que me sustentou e sustenta é o grande amor de Deus por nós. Sentimos Ele em cada detalhe dos nossos dias”.
“Sempre digo que, no momento da minha maior dor, senti o maior amor, que é o de Deus por mim e por todos os meus.” A família também encontrou força na própria família. Não houve uma fórmula para superar a perda, mas a compreensão de que ninguém precisava atravessar aquele período sozinho. “Um dia um estava mais fraco e o outro estava mais forte, e a gente foi se revezando. Quando um chorava, o outro abraçava e rezava”, lembra.
Havia ainda uma razão muito concreta para continuar. Solange estava grávida de um mês e meio e tinha uma filha de apenas três anos. A vida, mesmo atravessada pela perda, seguia acontecendo. Foi preciso continuar por quem havia ficado e também pela vida que ainda estava por vir.
Continuar não é esquecer
Ao longo dos anos, Solange percebeu que construir novos momentos não significava deixar para trás quem partiu. “A gente decidiu continuar vivendo, não porque a dor acabou, mas porque o amor que a gente ainda tem aqui precisava continuar.”
Essa talvez seja uma das maiores lições deixadas por quase três décadas de convivência com a saudade: seguir vivendo não diminui o amor por quem morreu. Para ela, sorrir novamente, fazer planos, celebrar e construir novas histórias não representa uma traição à memória daqueles que partiram. “Construir novos momentos não é trair quem se foi, é honrar a vida que Deus ainda nos deu.”
O tempo também trouxe amadurecimento. A ferida permaneceu como parte da história, mas deixou de ocupar todos os espaços. “Ao longo do tempo percebemos que o sofrimento não mata, e sim nos amadurece”.
“Não tenham pressa e não se cobrem”
Ao olhar para outras famílias que ainda enfrentam a perda de alguém, Solange não oferece uma fórmula para superar o luto. Ela oferece aquilo que aprendeu ao longo do próprio caminho: tempo, união e fé. “Eu diria: não tenham pressa e não se cobrem.”
Para ela, recomeçar não significa recuperar a pessoa que existia antes da tragédia. Algumas experiências mudam para sempre quem somos. “Recomeçar é aprender a ser uma nova pessoa, com essa cicatriz, mas com Deus te refazendo por dentro.”
Solange também aconselha que as famílias não atravessem a dor isoladamente. Conversar, chorar, rezar e permanecer perto uns dos outros foram atitudes que fizeram diferença em sua própria história. “Segurem forte a mão um do outro. Conversem, chorem juntos, rezem juntos. Não se isolem.”

e Ana Karolyna de Oliveira (05/05/1990 – 08/09/1998)
(Foto: arquivo pessoal)
Vinte e oito anos depois, a saudade continua existindo. Mas ela já não é apenas sinônimo de ausência. Também carrega histórias, gestos, lembranças e tudo aquilo que permaneceu de Maria e Ana Karolyna na família. A dor mudou de forma. O amor, não.
E foi assim que Solange aprendeu a seguir: levando consigo quem partiu, cuidando de quem ficou e permitindo-se viver os dias que ainda estavam por vir. “Um dia de cada vez, com fé, a dor se transforma em saudade com esperança de um reencontro.”