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OpiniãoOPINIÃO - O materno enamoramento pela utopia

OPINIÃO – O materno enamoramento pela utopia

Os escritos que outrora sediaram a utopia agora sonham a materna revolução. Sinal lindo e absoluto de um novo começo de era.

Se no século passado tudo andou conforme a convocação da maior de todas as utopias até então, no compasso do marxismo que gerou o mundo socialista, o novo tempo é potencialmente ainda mais novo, pois não quer colocar em causa somente o capitalismo, mas a própria base civilizacional que lhe dá sustentação.

Assim, o grito que se ergue é contra o patriarcado, por conta de um novo pensamento crítico, a voz da utopia matriarcal, que busca colocar em cheque mais uma vez as certezas de nossa cultura.

O domínio do masculino sobre o feminino, do homem sobre a mulher, é polemizado. O medo que o amor gerado pela igualdade entre os gêneros nos conduza a uma vida mais sã afinal será vencido?

Há uma espécie de loucura envolvida em tudo isso, que é a loucura amplamente desejável e sadia da paixão. Uma loucura de amor pelo armistício humano, pelo fim dos genocídios. Uma atitude de amor e coragem pela paz e a liberdade, que nos comanda desde o chamado inconsciente coletivo.

Sendo “loucura”, contraria tudo aquilo que parece “normal” ou “certo”, para se colocar no caminho de novas modalidades, claro que “estranhas”, porque desconhecidas, de nos relacionarmos mutuamente.

A loucura, no caso, agora, depois de se tentar acabar ou diminuir com as desigualdades na distribuição das riquezas materiais, é procurar, até que se ache, maneiras de fazer com que a energia do feminino assuma o comando da sociedade, em um mundo sabidamente controlado pelo masculino.

Seja, a concretização de tal intento, pelo homem que se coloca na onda da beleza interior que esse nova utopia desperta; seja pelo, digamos, “louco desatino” das manifestações no campo da diversidade sexual e de gênero, com gays, lésbicas, transgêneros, bissexuais, nos revelando novas formas de sentir, de amar, de ter prazer. E assim por diante.

Algo aí, nessa contracorrente da força masculina que governa a humanidade desde há muito, reacende a poesia do sonhar com a mudança social. E com isso acabou gerando, especialmente a partir da última década, uma nova militância, um novo tipo de combatente que, com muito força, alegre, elegância e impertinência, trabalha para consagrar um novo mito de liberdade, que deverá atravessar o século XXI, transformando o mundo, mais uma vez.

Acho, sinceramente, que a procura pelo feminino, para adensar nossas propostas de revolução, acima de tudo encontra um de seus maiores reforços em traços já muito bem definidos da própria brasilidade.

Ou seja, na onda que se principia, para alterar os destinos da humanidade, o Brasil, por mais incrível que pareça nesse momento de nossa história, se encontra altamente envolvido.

Antes de tudo, o feminino é a força que contraria a obsessão, tão masculina, de controle absoluto sobre a realidade.

Nesse sentido, deve se entender o Brasil como mito. De fato, o que se tem sobre nossa forma de ser é a noção de um povo alegre, cordial, generoso. O tão famoso, mas um tanto desgatado, país do carnaval e do futebol.

A raiz dessa ilustração evidentemente fantasiosa é a intuição, manifestada pelo inconsciente, enquanto matriz da cultura, de que somente o tempo artístico, lúdico por excelência, é capaz de produzir nossa harmonia enquanto coletividade.

Somos a pátria, por isso, da grande ilusão artística.

Evidentemente, a contestação desse mito é facilmente realizada quando não se tem consciência da importância da arte e do sonho na vida humana, sobretudo quando se está falando de revolução e utopia.

Por consequência, muitas pedras se atiram contra o mito da brasilidade, seja através do senso comum ou por meio de críticas culturais mais elaboradas.

Nada, no entanto, é capaz de diminuir sua presença. Basta observarmos o modo como ele continua se reproduzindo, em todas os âmbitos de nossa cultura, da publicidade à música contemporânea (que há muito deixou o samba para trás como genêro hegemônico).

O feminino se liga a essa razão artística brasileira de duas maneiras.

Por um lado, através do privilégio ao conhecimento mais artístico-intuitivo do que racional. Para o Brasil dar certo, é preciso primeiro sonhar o Brasil, para, a partir de uma identidade que é renovadora, formular conhecimentos novos em campos outros vinculados à vida prática, como a ciência e a economia.

De outro lado, porque a inventidade cultural da qual somos portadores é fruto, como não poderia deixar de ser, de uma região inconsciente matriarcal que nos guia com uma docilidade absolutamente fértil e libertária.

Não por acaso, o país predominantemente católico que está em nossa origem (o maior do mundo) tem por padroeira uma rainha da águas, Nossa Senhora Aparecida, que predomina em nosso imaginário como grande mãe cultivadora dos aspectos lúdicos de nossa gente, sincretizada, no caso do raciocínio afrodescendente, com a orixá Oxum, figura materna por excelência, regente do amor e da fecundidade feminina.

A graça do Oxum, efetivamente, nos auxilia no parto, para o nascimento de uma sabedoria humana grandemente relacional, onde diferentes formas de conhecimento (europeia, indigena, negra) funcionam como entusiasmo para o enfrentamento das dificuldades da vida em um planeta que corre perigo, transformando a brasilidade em uma espécie de passaporte para o futuro mundial.

Algo que, para ser coerente consigo mesmo, começa com a vida nossa doméstica de cada dia, onde a substância artística obrigatoriamente deve ganhar relevo. A mim, por exemplo, como marido e pai, se torna fundamental o gesto político de redesenhar uma miríade de gestos e atitudes que podem se transformar mediante a elevação de minha alma corrrentemente masculina ao saber embutido nessa mitologia.

Esse é o ápice pois da nova utopia que se formula: de uma consciência matriarcal, com relações estreitas com o país em que vivemos, e que vem sofrendo tantos ataques de ódio atualmente, virá um razão nova, porque muito mais complexa e sensível, que permitirá à humanidade enfrentar com maior destreza a crise planetária que se avizinha.

É como diz o músico e pensador Emicida: quem destravar o Brasil, destrava o mundo.

Não por acaso, acabou surgindo também no Brasil o principal contraponto a tal pretensão, sob a figura maligna de Bolsonaro.

Na beira de um precipício onde se encontram símbolos fundantes e furiosos, a ponto de recriarem em terras brasileiras o próprio terror nazista, nós caminhamos enquanto nação.

Algo que velozmente nos leva em direção ao futuro, compromissados com uma onda pensadora feminina que empodera senzalas e prisioneiras mentoras de avanços decisivos, no sentido da liberdade que a vida humana anseia por experimentar em sua jornada sobre esse frágil e mítico planeta Terra.

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