A crise humanitária vivida pela Venezuela nos últimos anos provocou um dos maiores fluxos migratórios da história recente da América Latina. Estima-se que cerca de oito milhões de venezuelanos tenham deixado o país, fugindo da fome, do desemprego, da perseguição política e do colapso econômico causado pelo regime de Nicolás Maduro.
A possível queda do governo venezuelano é vista por parte da comunidade internacional como um avanço rumo à retomada da democracia no país idealizado por Simón Bolívar. No entanto, para além das disputas geopolíticas e do interesse internacional sobre as reservas de petróleo venezuelanas, há uma realidade que exige atenção imediata: a situação dos cidadãos que foram forçados a deixar sua terra natal.
A Colômbia foi um dos países que mais receberam imigrantes venezuelanos. No Brasil, a principal porta de entrada é o município de Pacaraima, em Roraima. Em entrevista recente, o governador do estado, o anapolino Antônio Denarium, afirmou que aproximadamente 30% dos crimes registrados em Roraima estariam relacionados a imigrantes venezuelanos — declaração que reacende o debate sobre acolhimento, integração social e políticas públicas voltadas à migração.
Em Anápolis, o cenário evidencia a fragilidade dessa rede de apoio. É cada vez mais comum encontrar venezuelanos pedindo ajuda nas ruas. O sotaque, as vestimentas e as características físicas não deixam dúvidas sobre a origem dessas pessoas. Embora ações pontuais de grupos religiosos, organizações não governamentais e cidadãos solidários ajudem a minimizar o sofrimento, a cidade carece de uma política estruturada de acolhimento e inclusão.
A imagem que ilustra esta reportagem simboliza essa realidade: uma criança venezuelana abrigada dentro de uma caixa de papelão, em um semáforo da Avenida Minas Gerais, no bairro Jundiaí, em frente ao Senac, enquanto a mãe pede ajuda aos motoristas. A cena ocorre a poucos metros de um dos restaurantes mais caros da cidade, localizado no prédio Gênesis, escancarando o contraste social.
Diversas tradições religiosas defendem o acolhimento ao estrangeiro. A Bíblia, por exemplo, ensina que o imigrante deve ser tratado com justiça, amor e hospitalidade, lembrando que todos já foram peregrinos um dia. “Não oprimam o estrangeiro. Vocês sabem como é o coração do estrangeiro, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito”, diz o livro do Êxodo.
Diante de um país rico em recursos naturais, mas marcado pela pobreza de sua população, a esperança é que os debates sobre democracia, justiça social e interesses econômicos não se sobreponham à dignidade humana. Que, acima de tudo, o olhar esteja voltado para as pessoas — homens, mulheres e crianças — que carregam consigo não apenas a condição de refugiados, mas também o direito à vida, à dignidade e ao acolhimento.