A pesquisa liderada pela professora Tatiana Sampaio, da UFRJ, ganhou as manchetes e as redes sociais com uma promessa que mexe com o que temos de mais profundo: a esperança de quem vive com uma lesão medular.
Assisti à entrevista da pesquisadora no Roda Viva e, como alguém que vive dentro da universidade, sinto que precisamos baixar um pouco a poeira para enxergar o que temos em mãos. Não se trata de “torcer contra” ou “a favor”. Ciência não é arquibancada.
Para quem caiu de paraquedas, o estudo envolveu oito pacientes. Seis melhoraram, um voltou a andar. É emocionante? Sem dúvida. É definitivo? Nem de longe. O trabalho ainda é um pré-print, ou seja, não passou pelo “filtro de qualidade” rigoroso da revisão por outros cientistas independentes.
Estudos-piloto, por definição, servem para ver se uma ideia é viável, não para bater o martelo sobre segurança ou eficácia. O cérebro e a medula são sistemas de uma complexidade absurda; o que funciona em oito pessoas pode não se repetir em oitocentas, ou pode trazer efeitos colaterais que ainda não mapeamos.
O “moedor de carne” da pesquisa
Quem vê o resultado no jornal não imagina o que é a vida de um pesquisador no Brasil. É um trabalho ingrato, muitas vezes solitário. São décadas de dedicação, gastando o próprio dinheiro e sacrificando a saúde mental para tentar entender uma molécula.
Por isso, dói ver a ciência ser tratada no Instagram ou no Tiktok como se fosse um time de futebol. De um lado, uma defesa cega que ignora protocolos; do outro, qualquer pedido de cautela sendo lido como “inveja” ou “boicote”.
Nós, cientistas, questionamos uns aos outros o tempo todo. Isso não é falta de educação ou desrespeito, é o método. Se eu publico algo, quero que meus pares tentem achar furos no meu trabalho. É assim que a gente garante que o que chega ao paciente é remédio, e não ilusão.
O risco da pressa
A maior preocupação hoje não é o composto em si, mas o que a divulgação apressada causa. Quando pulamos etapas, geramos uma corrida judicial por tratamentos experimentais, alimentamos uma desinformação perigosa e colocamos uma pressão política que pode atropelar o rigor técnico.
A ciência precisa de calma. Paixão é ótimo para começar uma pesquisa, mas é o ceticismo que a termina com segurança. Precisamos de mais testes, mais transparência e menos barulho de rede social. A esperança dos pacientes é sagrada demais para ser tratada com menos do que o rigor absoluto.