Imagine alguém que passou a vida inteira trabalhando, criando filhos, construindo família, ajudando vizinhos, pagando impostos. Agora imagine essa mesma pessoa, já idosa, vivendo sozinha em uma casa silenciosa, com dores no corpo, na alma, e sem ninguém para estender a mão. Essa não é uma ficção comovente: é a realidade de muitos idosos hoje em Anápolis, uma cidade que cresce em números, mas encolhe em compaixão.
O abandono de idosos não é apenas um problema social. É uma ferida aberta em nossa humanidade. É o reflexo direto da sociedade que escolhemos ser: apressada, autocentrada e seletiva em quem considera digno de atenção. O número de denúncias de abandono e violência contra idosos subiu drasticamente, mas o que está por trás dessas estatísticas são vidas sendo deixadas para trás.
Em Anápolis, a situação é especialmente dolorosa. Cresce o número de idosos encontrados em situações de extrema vulnerabilidade: doentes, famintos, sem cuidados básicos, sem um rosto familiar por perto. Muitos deles ainda enfrentam problemas de saúde mental, agravados pelo isolamento e pela ausência de vínculos afetivos. São pais, avós, vizinhos que talvez ontem estivessem sentados ao nosso lado, e hoje estão esquecidos em camas silenciosas, esperando por uma visita que não chega.
E não pense que isso atinge apenas os mais pobres. Há idosos com alto poder aquisitivo vivendo o mesmo abandono — vítimas de golpes, da solidão e do desprezo disfarçado de “falta de tempo”. Porque não se trata apenas de dinheiro. Trata-se de vínculo, de cuidado, de presença. E isso não se compra.
A estrutura pública, que deveria proteger, é insuficiente. Em Anápolis, faltam abrigos, faltam profissionais, faltam alternativas dignas para quem não pode mais cuidar de si. O sistema de saúde trata o idoso como um corpo a ser medicado, não como uma pessoa com história, com sentimentos, com valor. Eles são socorridos, estabilizados e devolvidos ao mesmo cenário de abandono. Um ciclo cruel que termina muitas vezes em morte solitária, sem luto, sem despedida.
Enquanto isso, boa parte da sociedade vira o rosto. Há quem ache que “não é problema meu”. Mas é sim. O modo como tratamos nossos idosos diz tudo sobre o que somos como comunidade e sobre o que nos espera no futuro. Envelhecer não deveria ser uma punição. Deveria ser uma fase de reconhecimento, de cuidado, de amor redobrado.
Anápolis precisa acordar. Não podemos continuar tratando o abandono de idosos como uma estatística de rodapé. Precisamos criar redes de apoio reais, envolver escolas, igrejas, vizinhanças, e cobrar o que é dever do poder público: políticas eficazes de acolhimento e proteção. Acima de tudo, precisamos resgatar a empatia porque ninguém merece terminar a vida sentindo-se invisível.
Se não cuidarmos dos que vieram antes de nós, que esperança nos resta para quando for a nossa vez?
Você já parou para pensar em como será sua velhice — e quem estará com você?