Celebrar o Dia Internacional da Mulher sempre foi importante. É um momento de reconhecer conquistas, lembrar das lutas que abriram caminhos e afirmar direitos. Mas, no Brasil de hoje, o 8 de março também carrega um peso difícil de ignorar. Em um país onde mulheres continuam sendo assassinadas por serem mulheres, a data precisa ser também um momento de reflexão e de indignação.
Nos últimos anos, os números de feminicídio cresceram de forma preocupante. Em média, quatro mulheres são mortas por dia no Brasil em crimes motivados por violência de gênero. É um dado duro, que revela que essa violência não é exceção nem acaso. Ela faz parte de uma estrutura social que ainda trata a vida das mulheres como algo menos protegido.
Grande parte desses crimes acontece dentro de casa ou no círculo mais íntimo das vítimas. Muitas vezes, quem mata é o marido, o namorado ou o ex-companheiro. Isso mostra que o feminicídio quase nunca acontece de repente. Antes da morte, quase sempre houve um histórico de violência que foi se acumulando ao longo do tempo. Vieram antes o controle, o ciúme doentio, as ameaças, as agressões físicas ou psicológicas. Em muitos casos, houve também pedidos de ajuda que não foram ouvidos.
A psicóloga e pesquisadora da Universidade de Brasília, Valeska Zanello, tem chamado atenção para um ponto importante nesse debate. Segundo ela, a sociedade brasileira ainda é muito tolerante com relações abusivas. Muitas vezes, comportamentos de controle e violência são minimizados ou vistos como algo normal dentro de um relacionamento. Essa permissividade ajuda a criar um ambiente onde a violência contra mulheres encontra espaço para crescer.
Zanello também aponta que a forma como a masculinidade é construída culturalmente no país muitas vezes associa ser homem a exercer poder, controle e domínio. Quando essa ideia se mistura com frustração, ciúme ou sensação de perda de autoridade, a violência pode aparecer como uma tentativa de reafirmar esse poder.
Em estados marcados por culturas mais tradicionais e patriarcais, esse cenário pode se tornar ainda mais visível. Goiás, por exemplo, registra todos os anos dezenas de casos de feminicídio. Em muitos deles, a violência doméstica aparece como pano de fundo. São histórias que começam em relações aparentemente comuns e terminam em tragédias que poderiam ter sido evitadas.
É importante entender que o feminicídio não começa no momento do crime. Ele começa antes, em pequenas violências cotidianas que vão sendo naturalizadas. Começa quando se aceita que um homem controle a vida de uma mulher, quando se relativiza uma agressão, quando se transforma ciúme em prova de amor.
Por isso, enfrentar essa realidade exige mais do que punição depois da tragédia. É preciso mudar mentalidades, questionar padrões culturais e construir relações mais igualitárias. Isso passa pela educação, pelas políticas públicas de proteção e também pela coragem coletiva de não aceitar mais a violência como algo normal.
O Dia Internacional da Mulher nasceu como uma data de luta. Mais de cem anos depois, ele continua sendo necessário exatamente por isso. Porque, enquanto mulheres ainda forem assassinadas dentro de suas próprias casas, por pessoas que diziam amá-las, não há como tratar o 8 de março apenas como uma comemoração.
Ele precisa ser também um chamado à responsabilidade de toda a sociedade. Afinal, cada número nas estatísticas representa uma vida interrompida, uma família destruída e uma história que poderia ter sido diferente.