A denúncia de um caso de bullying em um colégio militar de Anápolis mobilizou pais nas redes sociais e trouxe novamente à tona o debate sobre violência no ambiente escolar. A repercussão do episódio, amplamente comentado na internet, levanta preocupações não apenas sobre o ocorrido dentro da escola, mas também sobre os impactos emocionais para os estudantes envolvidos.
Especialistas alertam que, quando situações como essa ganham grande visibilidade pública, os efeitos para a vítima podem ser ainda mais intensos. Para compreender melhor as consequências psicológicas do bullying e os caminhos para prevenção, a reportagem conversou com a psicóloga Juliana Mendonça Santos.
Repercussão pública pode intensificar sofrimento da vítima
Segundo Juliana Mendonça, quando um caso de bullying ganha grande alcance nas redes sociais, a situação pode se tornar ainda mais difícil para quem sofreu as agressões.
“A grande repercussão funciona como um espelho amplificador”, explica a psicóloga. “Para a vítima, isso pode significar revisitar constantemente o trauma. O olhar do outro deixa de ser acolhedor e passa a ser persecutório.”
Ela afirma que, quando o jovem é exposto a reviver uma dor que ainda não conseguiu elaborar emocionalmente, o sofrimento pode ultrapassar o campo psicológico. Nesse contexto, podem surgir sintomas físicos e emocionais.
“Esse sofrimento pode aparecer no corpo em forma de sintomas somáticos, fobias, quadros depressivos e, em situações limite, até ideação suicida como uma tentativa de interromper a angústia e o sentimento de inadequação”, afirma.
Mudanças de comportamento podem indicar pedido de ajuda
A psicóloga destaca que muitas vítimas de bullying não conseguem verbalizar diretamente o que estão vivendo. Por isso, o comportamento costuma ser o principal meio de expressão do sofrimento.
“A violência é algo que invade o sujeito. Por isso, precisamos aprender a ‘ler’ o comportamento do adolescente, porque ele é sua principal linguagem”, explica.
Entre os sinais mais comuns estão retraimento social, isolamento, alterações bruscas de humor e queda repentina no desempenho escolar. Mudanças no “jeito de ser” também merecem atenção.
“Essas mudanças geralmente indicam que o mundo interno do jovem está tentando processar algo que ele não consegue transformar em palavras”, afirma.
A agressão pode esconder fragilidades
Do ponto de vista psicológico, o bullying também precisa ser compreendido além do comportamento agressivo em si. Juliana Mendonça explica que, muitas vezes, o agressor utiliza a violência como uma forma de lidar com fragilidades internas.
Inspirada nas reflexões do psicanalista Sándor Ferenczi, ela afirma que a agressividade pode funcionar como uma espécie de mecanismo de compensação.
“A agressão pode servir como uma ‘prótese’ para sustentar alguém que se sente impotente sozinho e precisa do apoio do grupo”, explica. “A violência acaba sendo usada como estratégia para conquistar pertencimento.”
A psicóloga também aponta que, frequentemente, a vítima representa algo que o agressor rejeita em si mesmo.
“Muitas vezes ele ataca no outro aquilo que não suporta reconhecer em sua própria subjetividade.”
Escola e família precisam agir com acolhimento e limites
Quando um caso de bullying vem à tona, a psicóloga ressalta que tanto a escola quanto a família têm papéis fundamentais na condução da situação.
A escola, segundo ela, exerce uma função social importante na formação dos jovens.
“A escola atua como um agente da lei na inserção social. Se ela não impõe limites claros, a violência pode se perpetuar como algo permitido”, explica.
No entanto, Juliana Mendonça reforça que o acolhimento deve ser direcionado a todos os envolvidos — inclusive ao agressor.
“Isso não significa validar o ato, mas permitir que ele elabore as razões do comportamento e investigue a história de violência que pode estar reproduzindo”, afirma. “A violência é aprendida com o outro e também pode ser transformada.”
Prevenção começa dentro de casa
Para prevenir situações de bullying, a psicóloga acredita que a base está na educação para o respeito às diferenças.
“A família deve ser o primeiro espaço anti-violência”, afirma. “É ali que o jovem aprende a reconhecer o outro como um sujeito com direitos, independentemente das diferenças.”
Como o adolescente ainda está em processo de formação emocional, ele muitas vezes reproduz experiências e modelos de comportamento que vivenciou.
“Educar para a não-violência é oferecer referências de identificação que respeitem a alteridade”, explica.
Ela também defende que a escola trate o tema de forma transversal, incorporando a discussão em diferentes disciplinas e práticas pedagógicas.
“A escola precisa ser um espaço onde impulsos violentos possam ser ressignificados e transformados em algo criativo, sempre com limites claros para todos.”
O caso em Anápolis segue gerando debates entre pais, educadores e autoridades, reforçando a necessidade de estratégias coletivas para combater o bullying e promover ambientes escolares mais seguros e acolhedores.